Monday, November 06, 2017

mppf! #6 especial poesia caribenha sapoti/sapatão em tradução e sendo vendida online à base de doação yeah


nada me autoriza muito a editar esse zine a não ser desejo de ser menos ignorante em relação aos nossos vizinhos e vizinhas poetas caribenhos. a ideia de fazer essa edição nasceu da minha ignorância. tudo o que eu sabia sobre o caribe era que rihanna é de barbados. e já que transar é a medida de todas as coisas no meu mundo, fui atrás de desconhecer menos o caribe por meio de sua poesia erótica contemporânea.


capa

contra-capa
(tubinhos, gente!)



encontrei um livro chamado caribbean erotic (da editora peepal tree), de contos, ensaios e poesia, de onde tirei 9 dos 11 poemas dessa edição (menos rihanna e raquel salas rivera). um dos ensaios desse livro é o de imani m. tafara ama, “normas e tabus da sexualidade” no qual, entre outras coisas, ela trata das relações de poder e gênero dentro da cultura popular na jamaica – mais precisamente do dancehall. imani aponta como as “dancehall queens” distorcem conceitos burguês de decência, ao mesmo tempo em que tentam se ajustar às demandas sexistas e misóginas dos “rudeboys” – espécie de gangue masculina dentro do dancehall e que eu só conhecia por causa da música de riri (orgulhosamente traduzida nessa edição).

capa do zine, com ilustração de gerard fortune (haiti)


a leitura do ensaio me despertou mais curiosidade sobre a situação da mulher caribenha, pela semelhança que vi entre o que imani descreve e as manifestações culturais no brasil.

durante as pesquisas, descobri que 1/3 das caribenhas já sofreu violência sexual e que, segundo a ONU, os índices de violência doméstica no caribe estão bem acima da média mundial, com 3 países do caribe na lista dos 10 com maiores índices de estupro do mundo. aí fiquei me perguntando: qual a relação da mulher caribenha com o brasil? ela existe?

pois existe: segundo o CONARE (comitê nacional para os refugiados), os países com maior número de solicitantes de refúgio no brasil em 2016 foram venezuela (3.375), cuba (1.370), e haiti (646), todos países caribenhos (também estão na lista além angola e síria). não encontrei dados sobre a quantidade de mulheres por país solicitante mas, do total de cerca de 10 mil refugiados no brasil, 32% são mulheres. o caribe está entre nós. as mulheres caribenhas estão entre nós.

pode parecer disparatado eu estar falando disso num editorial de um zine véi de poesia pornô, mas não é: não bastasse eu ser mulher, esse zine tem uma preocupação civil. seria impensável publicar o trabalho de mulheres caribenhas sem abordar um pouco questões atuais das vidas dessas populações, além da literatura (até porque literatura e política não são coisas separadas). são conexões difíceis de traçar, mas que fazem parte da preocupação minha e das pessoas que ajudam esse zine a existir. assim sendo, o “lucro” das vendas desse zine (entre aspas porque né, lucro é o que faz a monsanto, nóis do zine junta umas moeda) será doado para a equipe de base warmis – convergência de culturas, que trabalha com mulheres em situação de refúgio em são paulo.



o valor sugerido das doações é a partir de R$ 3, mas você pode doar menos ou mais. daí você recebe um pdf do zine no seu email. caso não tenha paypal (#bitchplease!), mande email para bolagato.edicoes@gmail.com e te mando os dados da conta-corrente da warmis.

uma vez que você receber seu zine, pode imprimi-lo, xerocá-lo, fazer o que quiser com ele, quantas vezes quiser. essa edição do zine foi feita em formato retrato A4 exatamente para que você possa imprimir as páginas avulsas e colá-las nas paredes do seu mundo.

não acreditamos em copyright, só em human rights.

beijos,
adelaide




a edição #6 do MAIS PORNÔ, POR FAVOR! tem poemas de afua cooper (jamaica), aurora ferguson (bahamas), colin robinson (trinidad y tobago), lelawattee manoo-rahming (trinidad y tobago), omi j. maya taylor-holmes (não achei país nem ano), raquel salas rivera (porto rico), rihanna (barbados), rosamond s. king (não achei país nem ano), sajoya (jamaica), sandra garcía rivera (porto rico/eua) e paula obé (trinidad y tobago) traduzidos por rafael mantovani (caruaru brinks são paulo), andré capilé (barra mansa), carol morais (recife), angélica freitas (pelotas), mafalda gomes (porto), j. carlos teixeira (porto), chris daniels (oakland), cecília floresta (são paulo), nina rizzi (campinas) e adelaide ivánova (recife). 

o MPPF! é um zine independente, anarcobucetalista, que se apropria do termo "pornografia" para espalhar no mundo poesia erótica queer e feminista (brasileira, portuguesa e em tradução), com o objetivo de torcer a lógica misógina, sexista, transfóbica, homofóbica e capitalista do pornô mainstream.

Monday, October 23, 2017

coisas que não posto mais no facebook, semana #2


essa semana a postagem vai ser mais longa, porque tava de férias, e um pouco auto-centrada, porque enquanto estive de férias trabalhei que só a porra haha e quero me amostrar (até porque tenho que manter a fama de egocêntrica, né mores).





0. semana passada, junto com mafalda sofia gomes e j. carlos teixeira, co-editores do MPPF! #5 (especial pornô-portugal), a gente fez o lançamento do zine na confraria vermelha livraria de mulheres, no porto. teve leitura dos poemas, conversinhas sobre poesia putaria e portugal e, como era dia das escritoras (dia, aliás, que nasceu a filha de andré capilé! viva gaia!), a poeta alemã-que-escreve-em-português chrischa venus oswald leu um poema do seu livrinho lindo, "sal".

foi foda mas o mais importante é que vocês conheçam e apoiem o projeto anarcobucetalista da grande aida suárez gutierrez, dona da livraria e uma das organizadoras do festival feminista do porto! sério, que mulher foda.


meus filhos carlos e mafalda e eu rindo
porque uma mamãe sempre fica feliz perto da família

casa cheia

vitor teves um dos poetas do zine
com o poema-tetas de patricia lino


aida explicando o beabá da vida pra mim e pro comunista


o comunista com o martelo
e eu adorando ele
como sempre
(fotos roubadas de inês afonso lopes)

1. esse fim de semana que passou participei da latinale, o festival itinerário de poesia latinoamericana na alemanha. na programação: paula abramo, ofelia huamanchumo de la cuba, lina nieves avilés, agustina ortiz, tilsa otta, mayra oyuela, tálata rodríguez, jannet weeber brunal, alejandro tarrab, alejandro álverez nieves, andrés anwandter, frank báez, jorge ernesto centeno vilca, benjamin chávez e miguel ángel petrecca. 

desses, meu coração bate assanhado com os trabalhos de paula abramo (imensa, maravilhosa, mel dels), tilsa otta, alejandro tarrabofelia huamanchumo de la cuba


paula lendo alejandro tarrab
(que não pôde estar presente por causa dos furacões no méxico :/)

catálogo do festival
(amamos esse nome)

um poema de tilsa otta


um poema de paula

um poema de adelaide
#egocêntrica


um poema de ofelia



1.2
PROS AMIGOS BRASILEIROS NA ALEMANHA (porque precisa de um número de celu alemôo):
a revista alba está precisando de ajuda para continuar existindo! a alba faz um trabalho lindo e incansável de tradução e divulgação da literatura latinoamericana na alemanha.

pra ajudar as meninas a ganhar mil euros e continuar realizando esse trabalho, basta votar no projeto delas neste site aqui (você colocar o número do celu, recebe um código por SMS e insere o código no site).

ajudem a alba

plmmds!


2.
entre setembro, outubro e novembro sou co-editora da revista gueto. sugeri mais de 20  anarcobucetalistas (perdi as conta na real) e até agora tem:
ravena monte, do ceará
thaiz cantasini, de goiás
regina azevedo, do rio grande do norte
cecília floresta, de são paulo
patrícia naia, de são paulo vivendo em pernambuco
jarid arraes, do ceará vivendo em são paulo

tem também pollyana furtado, do pará, que eu não conhecia e foi sugestão dos editores da revista. que maravilha é ver tanta mulé não-sudestina dando bucetada no mundo.


3. 
os cadernos do cep #5, editado por julia klien, que tem carolina luisa costa, clara de góes, cristina flores, rita isadora pessoa (vulgo mygirl) e eu foi lançado esses dias no CEP 20.000 (amém). quem quiser comprar, (vale cada centavo), mande mensagem pro italo diblasi que ele sabe.



4.
esses podcasts comunistas
(te dedico, zacca)

5.
esse artigo maravilhoso de regina dalcastagnè, profa da UnB, toca, entre outras coisas, num assunto que insisto sempre: são paulo não é o brasil -> a produção cultural do "brasil" (são paulo) tampouco não é o brasil.

Em 30 de dezembro de 1904, Euclides da Cunha escrevia ao seu pai desde Manaus: “a mais consoladora surpresa do sulista está no perceber que este nosso Brasil é verdadeiramente grande porque ainda chega até cá. Realmente, cada vez mais me convenço de que esta deplorável Rua do Ouvidor é o pior prisma por onde toda a gente vê a nossa terra”. A crítica perspicaz do autor apontava o risco de se reduzir a percepção sobre a realidade do país a essa perspectiva tão estreita. Infelizmente, 120 anos depois, e usando a Rua do Ouvidor agora apenas como uma metáfora da arrogância de certa elite intelectual dos centros mais desenvolvidos do país, precisamos continuar alertando: o Brasil chega muito mais longe do que costumamos imaginar.

uma coisa importante de falar do trabalho da professora: ela faz questão de se fazer entender, usando uma linguagem acessível a acadêmicos e não-acadêmicos. palmas.

6.
a atualidade dessa entrevista das guerrila girls, de 10 anos atrás mostra que, infelizmente, o trabalho delas ainda é necessário.

 


7.
saiu o catálogo da exposição "humble cats", pela yoffy press, do qual participo com aquela foto de vovó. 


vovó à esquerda

capa (bela)

8.
no dia 4 de outubro, meu amigo rafael mantovani me mandou essa carta, que na verdade era de caio fernando abreu pra hilda hilst, e salvou a minha vida:


Hildinha, a carta para você já estava escrita, mas aconteceu agora de noite um negócio tão genial que vou escrever mais um pouco. Depois que escrevi para você fui ler o jornal de hoje: havia uma notícia dizendo que Clarice Lispector estaria autografando seus livros numa televisão, à noite. Jantei e saí ventando. Cheguei lá timidíssimo, lógico. Vi uma mulher linda e estranhíssima num canto, toda de preto, com um clima de tristeza e santidade ao mesmo tempo, absolutamente incrível. Era ela. Me aproximei, dei os livros para ela autografar e entreguei o meu Inventário. Ia saindo quando um dos escritores vagamente bichona que paparicava em torno dela inventou de me conhecer e apresentar. Ela sorriu novamente e eu fiquei por ali olhando. De repente fiquei supernervoso e sai para o corredor. Ia indo embora quando (veja que GLÓRIA) ela saiu na porta e me chamou: - “Fica comigo.” Fiquei. Conversamos um pouco. De repente ela me olhou e disse que me achava muito bonito, parecido com Cristo. Tive 33 orgasmos consecutivos. Depois falamos sobre Nélida (que está nos States) e você. Falei que havia recebido teu livro hoje, e ela disse que tinha muita vontade de ler, porque a Nélida havia falado entusiasticamente sobre Lázaro. Aí, como eu tinha aquele outro exemplar que você me mandou na bolsa, resolvi dar a ela. Disse que vai ler com carinho. Por fim me deu o endereço e telefone dela no Rio, pedindo que eu a procurasse agora quando for. Saí de lá meio bobo com tudo, ainda estou numa espécie de transe, acho que nem vou conseguir dormir. Ela é demais estranha. Sua mão direita está toda queimada, ficaram apenas dois pedaços do médio e do indicador, os outros não têm unhas. Uma coisa dolorosa. Tem manchas de queimadura por todo o corpo, menos no rosto, onde fez plástica. Perdeu todo o cabelo no incêndio: usa uma peruca de um loiro escuro. Ela é exatamente como os seus livros: transmite uma sensação estranha, de uma sabedoria e uma amargura impressionantes. É lenta e quase não fala. Tem olhos hipnóticos, quase diabólicos. E a gente sente que ela não espera mais nada de nada nem de ninguém, que está absolutamente sozinha e numa altura tal que ninguém jamais conseguiria alcançá-la. Muita gente deve achá-la antipaticíssima, mas eu achei linda, profunda, estranha, perigosa. É impossível sentir-se à vontade perto dela, não porque sua presença seja desagradável, mas porque a gente pressente que ela está sempre sabendo exatamente o que se passa ao seu redor. Talvez eu esteja fantasiando, sei lá. Mas a impressão foi fortíssima, nunca ninguém tinha me perturbado tanto. Acho que mesmo que ela não fosse Clarice Lispector eu sentiria a mesma coisa. Por incrível que pareça, voltei de lá com febre e taquicardia. Vê que estranho. Sinto que as coisas vão mudar radicalmente para mim – teu livro e Clarice Lispector num mesmo dia são, fora de dúvida, um presságio. Fico por aqui, já é muito tarde. Um grande beijo do teu

Caio.
aliás, leiam rafael mantovani:
na modo
no escamandro


9.
essa semana sai o MPFF! #6 especial poesia caribenha! preciso terminar de costurar hehe.

com auto-retrato de riri












Friday, September 29, 2017

coisas que não posto mais no facebook, semana #1


1. essa foto de 1910 de clara zetkin e rosa luxembrugo, que ia postar depois das eleições de domingo na alemanha, em que o AfD, o partido de extrema direita, ganhou 94 lugares no parlamento:



2. texto novo, publicado hoje na coluna da revista pessoa, sobre a grande érica zíngano:

com a colaboração de vovó




3. a entrevista com adília lopes

foto de joana dilão





4. esses dizeres de mariana enriquez no artigo de mariana sanchez na edição de setembro do suplemento pe:

"nas artes ou na realidade, quase todos os vilões são homens, dos ditadores aos monstros e assassinos seriais. é engraçado que este protagonismo não lhes incomode, mas ser um marido incapaz de satisfazer sua mulher -- o que ocorre em pelo menos 50% dos casos --, isso, sim, lhes incomoda".

e logo em seguida faz um comentário sobre 'feminismo Beyoncé':

"é fácil ser feminista a partir deste lugar de poder que, aliás, é bastante masculino. a mulher maravilha, por exemplo, é um soldado. eu não queria reproduzir este modelo que pensa a mulher como uma deusa satisfeita sexual, financeira e filosoficamente (porque ninguém o é, nem a beyoncé)".

eu aliás tô obcecada com essa mulher, essa mariana enriquez. alguém já leu esse livro dela e pode me mandar seu exemplar usado de presente plmdds?




5. esse link sobre zines feministas na indonésia

6. essa maravilha:

 

7. um screen shot do meu google drive:

comuna deusa




Thursday, September 28, 2017

diz-me o nome da seita, angélica freitas


quando estava escrevendo o texto sobre angélica freitas para o suplemento pernambuco, pedi pra 25 poetas brasileiras me mandarem textinhos curtos, de até 5 linhas (claro que elas não conseguiram - mas a culpa é de angélica haha) sobre a relação delas com "um útero é do tamanho de um punho". nem todas conseguiram ou puderam enviar algo e, das 17 que toparam, não deu pra publicar todas, por falta de espaço mesmo :/

então publico aqui, na íntegra, os depoimentos dazamigas fazendo essa public display of affection pra angélica.

o artigo está na edição de setembro de 2017 do suplemento pe.



ANA MARTINS MARQUES (MG)

Em Um útero é do tamanho de um punho, Angélica Freitas adota o caminho arriscado de incorporar (e desviar) o clichê, a frase feita, o lugar comum (que ela capta tanto nas canções populares quanto por meio do dispositivo de busca do google). A desmontagem dos estereótipos se dá na linguagem, em poemas em geral curtos e cortantes, que incorporam a sátira, o jogo, o nonsense, embaralham referências literárias e da cultura de massas, demonstrando que dimensão política e trabalho de linguagem não são necessariamente antagônicos, que o humor não afasta a reflexão, o cômico não impede o desvelamento da violência, a aparente leveza e simplicidade podem conviver com a tensão e a complexidade.

São poemas políticos, sem dúvida, mas não é fácil reduzi-los a um slogan ou retirar deles algum discurso claro e inequívoco: assim como a boia mencionada em um dos textos, que não se explica, se usa, nesses poemas interessa menos um discurso que os antecederia e explicaria do que os procedimentos que acionam, os efeitos que são capazes de produzir, as forças que podem pôr em movimento. E também, talvez sobretudo, o prazer da leitura e a surpresa e a alegria da linguagem que eles são capazes de proporcionar.

Um amigo livreiro certa vez me contou que Um útero era o livro mais roubado na livraria. A informação me agradou (como curiosamente agradava também o livreiro), mas não me surpreendeu: quem rouba livros, imagino, são sobretudo jovens estudantes, meninas e meninos com pouco dinheiro, muito desejo de conhecer e pouco gosto por solenidades. É compreensível que Um útero se torne para eles um objeto de desejo. Talvez o que mais impressione na poesia da Angélica seja essa capacidade de falar ao mesmo tempo a jovens recém-chegados à praia da poesia e a poetas e leitores experientes, que encontram na sua poesia forças novas, uma lufada de ar.


CECILIA FLORESTA (SP)

“diz-me com quem te deitas/ angélica freitas”, amélias, rosângelas, robertas, solanges, denises, cristinas, carolinas, cecílias.

um útero caiu nas minhas mãos faz uns anos já, não por acaso. foi o primeiro livro que me fez pensar numa literatura nacional fancha e eu me lembro de ler cada um dos poemas incansavelmente (ainda hoje o faço) porque ali encontrei contrários, que Angélica jamais deixa espaço pro não-dito, essa instância tão presente na literatura feita por mulheres para mulheres. a força lesbiana dos poemas da Freitas me ajudou a dar voz aos meus próprios e me apontou o caminho pra estrada que hoje traço: visibilizar a literatura lésbica brasileira.


ERICA ZINGANO (CE)

A Adelaide me pediu pra escrever algumas linhas sobre o livro da Angélica. O que o livro causou em mim. Mas eu vou escrever um pouco mais, não tenho mais facebook, perco muitas vezes a linha. Mas eu vou falar meio por cima, ok? Um esmalte que cobre a unha cobre a unha sempre por cima. 5 a 8 linhas? Por cima. Começa aqui (mentira), Começa assim (mentira). O livro dela foi lançado em 2012. Eu comprei em 2012. Em Lisboa. Naquela livraria da Cotovia eu acho. Ou alguém mandou do Brasil pra mim? Não consigo me lembrar. Se você está lendo e você me deu esse livro de presente me desculpe. Ou você foi um atravessador? Não me lembro. Eu li em Lisboa. Porque eu morava em Lisboa. Faz mais de 5 anos. Em Lisboa, isso é um clichê, mas é verdade: é minha Senhôra, é Rapariga. É bicha, é fila. É um clichê sobre as nossas diferenças, mas para eles é normal. Também tenho um outro livro que fala de mulher logo assim, de cara. Aliás, muitos livros não param de falar de mulher. E têm outros que não falam de mulher de jeito nenhum, mas a mulher está lá. Mas daí entender como é que eles tão falando de mulher ou não tão falando de mulher já é outro rolê. E que mulheres são essas? É Maria, é Madalena, são as Mulheres de Atenas? São a Marcha das Mulheres? São as Madres de Mayo? É a Medusa? É a Mil uma utilidades? É negativo, é positivo, é zona de perigo? Esse outro livro que eu tava falando é do Péter Esterházy. Chama “Uma mulher”. Também foi lançado pela Cosac. Em 2010. Na “uma mulher (6)”, lemos logo no começo: “[…] E se trata de uma mulher limpa, ou seja [apesar de ter mau hálito, a mulher 6 tem mau hálito], tudo acontece em meio a uma abundância de escovação de dentes, não raro de um excesso de pastas de dentes” (continua). Lembro do poema sereia, não sei se é uma sereia, se é o do ovo do micro-ondas, mas tem a pasta Colgate e a dentatura. Não sei se está nesse livro. Ou se foi publicado depois. Eu não vou entrar muito em detalhes, mas vou ser um pouco spoiler do final, porque o texto do Esterházy termina assim: “[…] Mas isso não é importante [o fato de ele ser louco por ela e ela, a mulher 6, não ter descoberto isso ainda], o importante é que eu [ele, o narrador personagem participativo do texto da mulher 6] possa vê-la.” É. Digamos que 50% do trabalho já foi feito. Ver/ reconhecer/ perceber/ dar-se conta já é um começo. Mas ver também já é um abismo. Tem o ponto cego, o trompe l’oeil etc. Abre um outro tipo de abismo. O que é que você vê, quando você vê? O que é que você lê quando você lê? Vamos começar de novo: “Uma mulher limpa.” Eu escrevi no final do poema dela assim, "limpinha". Uma mulher é uma mulher é pau pra toda obra. A Angélica me deu de presente a Susana Thénon. Sem ela saber. Sem ninguém saber. Os melhores presentes são os presentes surpresa.



KATIA BORGES (BA)

Olha, eu fiquei realmente muito feliz quando foi lançado Um útero é do tamanho de um punho, porque, sabe como é, eu gostava muito da Angélica Freitas bem antes. Então é como fosse se um segredo que ganha o mundo. Mas, claro, Angélica Freitas ganhou o mundo de cara com Rilke Shake, que antes de ter em mãos, lia os poemas nos blogs em que ela escrevia e tal. E, quando saiu, entrevistei Angélica em Salvador, de olho naquela estética forte. E, de certo modo, aquele apreço se manteve resistência. Tem sempre um antes, e antes, eu havia participado de uma oficina de criação com ela e a convidei para abrir um sarau que eu tinha por aqui. Angélica é mesmo essa força, porque ela não se rende e está de olho no fluxo das coisas. Não tem medo da poesia, entende? E tasca um verso assim: “você é mulher e se de repente acorda binária e azul e passa o dia ligando e desligando a luz?”. E se você pergunta qual é a sua? Eu digo que sim, que essa menina é das minhas.


MARIA ISABEL IORIO (RJ)

Eu sempre ficava de recuperação em biologia, eu gosto muito de biologia, essa matéria do corpo. Eu sempre quis escrever sobre mulher, eu gosto muito de mulher, mas nunca soube dizer do que é feita, onde cabe, pra onde vai. Esbarrei nO útero é do tamanho de um punho e logo assustei possível, chegar, assim tão perto, do que somos e nunca seremos. A poesia da Angélica é olho da diferença. Se coloca, antes, lugar – que chance de nascimento, pra gente, é no braço – depois se abre, e extende, os dedos. Talvez não exista lá muita biologia: mas ficamos sabendo certo que a mulher, em geral, ao cuspir sentia-se muito melhor.


FERNANDA MORSE (RJ)

A ginecologista falou que meu útero é pequenininho, mas Angélica Freitas diz que um útero é do tamanho de um punho. Já sabemos em quem devo acreditar. Angélica, a propósito, assume não só o risco de ter contra si as leis das ciências biológicas mas também as leis da poesia e do machismo nosso de cada dia. Nunca me senti tão alegre com um desconforto como quando li os seus poemas. Os peritos da sacra literatura se roem e os machos se enervam enquanto Catulo goza esteja ele onde estiver. O caráter provocativo, satírico e, tantas vezes, até pueril dos poemas parece querer aplacar todo tipo de fetichização que pode existir acerca dos assuntos tratados, da imagem da mulher, da vida cotidiana, para abordá-los em sua crueza ora niilista e dura, ora cômica e nonsense.

PATRICIA LINO (PORTUGAL)

O Útero foi apresentado em Portugal pela primeira vez em 2013. Nós, as que o tínhamos podido ler antes, sabíamos o quão ele era urgente. Também sabíamos que, quando a Angélica assinava os exemplares acrescentando ao título um ponto de interrogação, “O útero é do tamanho de um punho?”, a pergunta era retórica. O Útero é de uma inteligência e sensibilidade mordazes, de um humor que faz engolir em seco — desconfortável e terno; o Útero é a representatividade pela qual, sem saber, esperei durante décadas (que foram, na verdade, séculos e milénios). É, em língua portuguesa, o começo de um novo discurso poético que vive desse ponto de interrogação: quem continuamos a deixar de fora?



REGINA AZEVEDO (RN)

O livro “Um útero é do tamanho de um punho”, da Angélica Freitas, me pegou de jeito aos 12 anos. Achei um exemplar meio escondido em uma livraria em Natal, onde as estantes de poesia parecem ser ainda menores. Na primeira página que abri, o poema “mulher de regime”, cuja personagem se chama Regina. E nos anos seguintes, nas páginas seguintes, caminhei sabendo que há muito de mim – e de todas nós – nesse livro: o útero da Angélica é um útero de muitas mulheres. É um livro pra não sair da mochila, um livro pra ser falado e lido.


GABRIELA POZZOLI (SP)

Do punho fechado ao útero, que me fazem sempre associar a luta, o título já me encantou, assim como a capa com suas costuras & rastros. “Uma mulher boa é uma mulher limpa” – aos poucos, prosseguia a leitura com meus olhos enfeitiçados e com uma espécie de raiva, me identificando com as letras e sensações, sendo eu, uma mulher feia, suja, ruim. Do que nos esperam enquanto ‘limpas’, ‘higienizadas’, ‘boas’, também me sobressalto com os papeis de gênero que não recordo de ter assinado contrato algum me comprometendo a ser, demarcados na maternidade com cores impostas que não foram minha escolha, bem como condutas. Queria eu ser mulher barbada, desconstruída de outra maneira, sem esse útero, sem esse binarismo. Demora um tanto aprender que há mulhereS, no plural. Anti-heroicas, fora do modelo, da forma, padrão. É toda uma pressa na qual desde cedo aprendemos, por amores e dores, que útero, antes de tudo, além de marcado na alma, também é arma.


ESTELA ROSA (RJ)

Conheci Angélica Freitas não sei bem como. Sei que, em um primeiro momento, o que me encantou nela foi o bigodinho. Pensava sempre no bigodinho, aquele poema do Rilkeshake, seu primeiro livro. O bigodinho era a metáfora perfeita para uma série de coisas na vida, pensava queria ter um bigodinho metafórico. Quando peguei um útero na mão (dia desses falei para uma amiga que eu tinha um útero em pdf) entendi de fato o segredo metafórico do bigodinho. Na verdade, lá atrás, um útero me disse que com bigodinho eu poderia ser uma mulher suja. Um útero, um punho e eu suja com o meu bigodinho. Podem jogar no Google: uma mulher suja é uma mulher de bigode. E com uma mulher de bigode, bem, cês já sabem.


YASMIN NIGRI (RJ)

Feminismo e poesia brasileira: impressões sobre Um útero é do tamanho de um punho
Estabeleci um contato mais estreito com a poesia em 2015, ano em que conheci Um útero, por intermédio de um amigo, numa mesa de bar. Folheei o livro e logo de cara encontrei o poema da mulher limpa, na contracapa outro poema genial falava da mulher mais ou menos bonita. Fiz campanha pra que o livro fosse estudado na oficina que eu frequentava, me comprometi a entrar em contato com a autora e convidá-la a estar presente. Angélica estava viajando, mas topou uma entrevista por email. A partir daí mergulhei cada vez mais no seu trabalho, culminando na redação de um artigo apresentado na Abralic em 2016 e uma nova entrevista feita esse ano será vinculada na Revista Caliban. Artigo: http://www.abralic.org.br/anais/arquivos/2016_1491264022.pd


ANA KIFFER (RJ)
pilhagem poética em voltagem sublime

1.flagre como os discursos tornam-se verdades e consensos; 2.saqueie esse mesmo conjunto – frases, ditados, interjeições rítmicas da infância afásica; 3.agora meu véio mostre a que veio – assuma a sua estatura. estou aí quando leio A. Freitas. antes da onda feminista de hoje. ao mesmo tempo numa certa espiral do modernismo “pau”- brasil que contra/põe o útero – em forma de punho. que apunhala os nossos clichês. deslocamento radical do sentido instituído no que há de mais vulgar – um certo ar sublime vigora nessa inversão tática: uma poética da crueza. comigo condiz. cansada do cozimento brando e incessante das nossas carnes. 



JULIA RAIZ (PR)

Quando eu abri o Um útero é do tamanho de um punho pela primeira vez, numa página aleatória, lembro de ter pensado que nunca tinha lido nada igual. Alguns anos depois, quando comecei a dar aula no cursinho solidário “Tô Passada”, iniciativa do Transgrupo Marcela Prado em Curitiba, decidi dar aula de literatura a partir da ideia de amor na poesia. Era um recorte pretencioso que começava no século XIX e chegava na produção contemporânea. A discussão mais marcante foi por causa do último poema lido: “eu durmo comigo”, principalmente, porque todo mundo cabia naquele “eu”. No mesmo dia a turma escreveu e compartilhou outros poemas sobre amor. Foi legal demais!


MICHELINY VERUNSCHK (PE)

Era 2013 e eu estava no Festival da Mantiqueira, em São Francisco Xavier, interior de São Paulo. Eu já havia lido sobre “O útero é do tamanho de um punho”, de Angélica Freitas, e o que havia lido não era nada elogioso. Numa noite, comprei o livro em uma tenda e o levei comigo. No dia seguinte, fui almoçar sozinha, o livro e eu. E o li inteiro ali mesmo e compreendi o motivo de ele ser tão atacado. Poesia em alta voltagem sobre o que é ser mulher numa sociedade patriarcal. Esse livro tem uma potência que me impressiona. É um documento importante sobre a barbárie mas, sobretudo, não perde em carga poética. É um livro para o presente e para o futuro.


BRUNA MITRANO (RJ)

lembro, com incontinência de riso aqui, do incômodo que o livro causou, como causa uma mulher suja, “porque uma mulher boa/é uma mulher limpa”, como causa “uma mulher gorda”, como causa uma mulher “gorda e bêbada”, como causa uma mulher escrevendo. “eu vim pra incomodar”, né, Karol Conka? viemos. a Angélica veio. é um levante. nada faz parar mais, não.


JARID ARRAES (CE)

Vejo “Um útero é do tamanho de um punho” como um livro de combate. Ele te diz a que veio já de cara e acho muito significativo que associe o útero à força, briga – assim, na capa. Coisa que se repete nele inteiro. É um livro de luta. Em muitos poemas, é um livro de raiva, de grito. E ao mesmo tempo tem um humor que me despertou muita identificação. Sempe acho bonito quando vejo mulheres o descobrindo porque chegam atraídas por esse tom, e aí também acabam descobrindo a poesia como uma possibilidade de ser entendida, de fugir de qualquer padrão de escrita poética, ou do que se relaciona à poesia geralmente. Percebo esse livro como uma porta que se abre para que mulheres escrevam poesia que morde, ri e ainda abre mais caminhos.


CARLA DIACOV (SP)

as mulheres de O Útero é do Tamanho de um Punho vieram se somar às mulheres que tenho espalhadas pelo corpo e pelo corpo do caminho até aqui (minha mãe, minhas avós, tias, primas, namoradas e minhas outras carlas nas fotografias dos acontecimentos). essas mulheres se instalaram, estão aqui, de mãos dadas com as minhas. essas mulheres todas estão em debate o tempo todo e lendo e relendo os poemas restauramos passagens, momentos em que me fiz valer do PunhoÚtero, da imensa força gerada desde o todo fêmea, que precisa, constantemente, estar de útero empunhado. intuitivamente e então com o livro, reconheci e pude batizar as várias ocasiões-porrada em ser mais uma mulher num mundo macho. posso afirmar que O Útero é do Tamanho de um Punho alimenta minhas tantas reentradas nesse mundo. O livro está em constante diálogo com minhas mulheres. é bonito o rebuliço.


Friday, August 25, 2017

uma apropriação pro recifês de poema-stalker de annemarie bostroem


#8

eu nunca vou pedir o teu amor, vou exigi-lo:
que tu me ame é meu direito e teu dever e
ainda que por ele eu quase tenha morrido,

eu sei que tu me adora – só tu não sabe disso.
tu ainda acredita ser capaz de escapar
das algemas que meu desejo usa

para prender tua alma. meus braços querem
te ninar e meus olhos procuram a tua cara.
nenhum deus vai te salvar do meu amor

quando ele recair sobre ti, pegando fogo.
e agora que tu afinal sai do escuro, e
essa brasa noturna em luz se transforma,

eu quero então abrandar teu facho, laboriosa.








Ich werde nie um Deine Liebe bitten,
ich fordre sie, mein Recht und Deine Pflicht.
Obwohl ich fast den Tod um Dich gelitten,

weiß ich, Du liebst mich, und Du weißt es nicht.

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Du glaubst noch zu entrinnen aus den Ketten,
die Dir mein Sehnen um die Seele flicht.

Doch meine Arme warten, Dich zu betten,
und meine Augen suchen Dein Gesicht.
Kein Gott wird Dich vor meiner Liebe retten,

wenn sie in Flammen auf Dich niederbricht.
Du aber tritt nun endlich aus dem Schattenn
und wandle diese dunkle Glut in Licht,

dann will ich dienend Deiner Kraft ermatten.



annemarie bostroem foi uma poeta, dramaturga e tradutora alemã nascida em Leipzig, em 1922. ela morreu em 2015, com mil e duzentos anos, em berlim, onde morava desde 1944.

ela é praticamente uma desconhecida, mesmo tendo uma caralhada de livro vendido. descobri o terzinen des herzens (que é o livro que tem este poema, cujo título “traduzi” como Tercetos de amor) em maio deste ano, por acaso, passeando com ewout, num sebo na wrangelstrasse. me custou um euro. o vendedor nunca tinha ouvido falar da muié, ninguém que eu perguntei depois tampouco conhecia.

o livro tem 38 poemas COMPLETAMENTE OBCECADOS RECIBÃO MERMO, e é dedicado ao primeiro marido dela, um boy famoso, friedrich Eeisenlohr (1889-1954), que era jornalista, dramaturgo, escritor e editor. como ele era bem mais velho e bem mais famoso que ela, annemarie era "conhecida" (nem isso) como a marida de eisenlohr, coisa que frequentemente acontece com mulheres de homis famosos, não ou pouco importando o quão incríveis elas sejam.

o livro foi lançado em 1947 pela Rupert-Verlag e rejeitado ideologicamente dentro da zona de ocupação soviética na alemanha oriental, por ser considerado apolítico e erótico – sem no entanto ter sua publicação censurada. 

já em 1975 (portanto 14 anos após a construção do muro de berlim) terzinen des herzens foi completamente censurado pelo regime da RDA, só voltando a ser editado nos anos seguintes. mesmo com todo backlash, ele teve 100 mil cópias vendidas.  

para esta tradução usei a edição que encontrei no sebo, de 1951, da Insel Verlag. mais três traduções inéditas deste livro vão sair em breve na próxima edição da revista parênteses (obrigada, lubi!).

queria dedicar essa tradução ao meu pobre namorado, que mal sabe onde se meteu. 







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Wednesday, August 23, 2017

o guepardo


para L. em seu aniversário


o guepardo macho é parecido com o leopardo
(ou seja é um gato)
as patas têm ranhuras
para se mover melhor em alta velocidade
a cauda é longa e serve
para lhe dar estabilidade nas curvas
ao contrário dos outros felinos não ruge
ronrona
têm na cara duas linhas pretas
(parecem lágrimas)
e protegem os olhos da claridade
(ele caça à luz do dia)
cada guepardo tem padrão exclusivo de anéis
em seu rabo
costumam marcar território mijando
(matam qualquer intruso)
adotam os filhotes perdidos ou órfãos
fazendo o papel de pai e mãe
têm uma cabeça pequena e aerodinâmica
uma coluna incrivelmente flexível
(para eles correrem mais rápido)
é um animal predador de estratégia simples
não usa táticas complexas como a emboscada
caça em perseguições em alta velocidade
matando sua presa de cansaço e asfixia
(termina a caçada com uma mordida na garganta)
consegue atingir velocidades de 115 quilômetros
por hora sendo portanto
de todos os animais terrestres
além de o mais bonito
o mais rápido




Monday, July 31, 2017

são paulo fashion flip, dia 4 (e uns dizeres sobre o fruto estranho)


o texto apresentado dentro da série "fruto estranho" (que teve também josely vianna baptista, grace passô, prisca augustoni, ricardo aleixo e andré vallias) é resultado de uma pesquisa iconográfica de feminicídios famosos e assassinatos de mulheres ativistas, no brasil, e de cujos corpos se encontra fotos no google images. vale dizer que outros feminicídios super famosos (tipo o caso serrambi ou o massacre do reveillon em campinas) não entrou no texto por não haver imagens disponíveis no google (graças a deus).

vamos bem longe quando o tema é exposição do corpo da mulher, inclusive a exposição do corpo morto - ou seja, o mais vulnerável que existe. assim sendo, enquanto juntava essas imagens no meu computador (aliás um processo traumático em si, deus me livre nunca mais faço isso de novo, porque além de salvar eu tinha que ficar olhando para elas, para descrever o mais acuradamente possível), fui reler "diante da dor dos outros", de susan sontag, em que ela fala da experiência dela na guerra de sarajevo e da nossa relação com imagens de zonas de conflito.

eu sempre fui obcecada com esse livro e, considerando o brasil o quinto em número de feminicídios no mundo (são 13 mulheres assassinadas/dia, segundo a onu) achei que podia friccionar o contexto brasileiro de morte de mulheres, no contexto de guerra que sontag aborda.


no vídeo, toda vez que eu falo "pág. não sei das quantas", o que vem depois é uma citação do livro. achei que era melhor fazer assim do que ficar repetindo algo tipo "abre aspas-citação-fecha aspas". só que tem muita gente no facebook reproduzindo exatamente essas partes da performance como se essas citações fossem minhas, e não são, e tô com medo da compainha das letras me processar hahaah! a foto do caderninho vermelho usado na performance taí pra provar que eu usei aspas, e no fim do texto há uma referência bibliográfica que, aliás, copio aqui:

Susan Sontag, “Diante da dor dos outros”, tradução de Rubens Figueiredo (São Paulo: Companhia das Letras, 2003) 


esse texto não teria sido possível de ser feito e apresentado sem a ajuda/inspiração de fabiana moraes e gui mohallem. obrigada às minhas amigas raquel borba, clarissa galvão e juliane miranda. obrigada ao coletivo garupa, a italo diblasi e flavio morgado. obrigada à minha mãe que quando eu nasci disse "vai adelaide ser anarcobucetalista na vida". obrigada à moça barbara que ficou conversando comigo pra me distrair, minutos antes deu entrar na igreja, e me salvou dum infarto. obrigada a maria valéria rezende que, já no camarim-sacristia, me disse: "menina, vai ter gente que vai gostar e gente que não vai gostar, e daí?".

obrigada principalmente à grande joselia aguiar, que mulher da pá-virada da porra. que visão. que visão. que divisor de águas.

fica o desafio para o ano que vem, na minha opinião: se misturar DE VERDADE com a comunidade local e incluir na programação os professores de literatura do ensino médio da rede pública, que são os verdadeiros formadores de leitores do país. 


olha essa foto gente que coisa mais linda
(quem tirou foi gabriela e me mandou depois)
esse é seu antonio carlos, professor de literatura
da escola de aplicação do rio.
a gente conversou tanto depois da performance
tem que ter menos prof de universidade nesses eventos
e mais prof das escolas públicas como produtores de pensamento
plmdds


sem mais mimimi, maiss chapas:


maria valéria e a filha de luaty

kanguei no maiki 

luaty gato assinando autógrafos 
eu tarra do lado de decoração hahaha


a moça barbara que salvou minha vida 

depois teve conversa com paula fábrio, leo cazes
e noemi jaffe (TE AMO!) que nessa chapa
mal-batida tá lendo um trecho de "o que os cegos estão sonhando"
(que foi o livro que eu tava lendo naquela viagem-demônia pra polônia,
com ewout, no ano passado)


mais tarde, no bar, eu e fred klumb na fila do banheiro


eu e meu beatnítalo


os militar na BR no caminho do aero do rio.
af que abuso.