Tuesday, December 05, 2017

A mais jovem guerrilheira*



Graças aos esforços de militantes como Elena Lagadinova, as mulheres nos países comunistas gozavam de mais igualdade do que em qualquer outro lugar do mundo.

. artigo de Kristen R. Ghodsee (professora de Estudos da Rússia e Leste Europeu na Universidade da Pensilvânia) publicado na revista Jacobin (semi-eca -- mais sobre meu abuso em relação à Jacobin em breve) em dezembro de 2016
. traduzido por Adelaide Ivánova na série "é doutrinação esquerdista suficiente ou tá pouco?", inventada e liderada por ela mesma
. link pro original: https://jacobinmag.com/2017/12/elena-lagadinova-bulgaria-partisan-amazon-gender-equality




Ela provavelmente é a feminista mais fascinante da qual você nunca ouviu falar. E durante os sete anos que tive a honra de conhecê-la, ela compartilhou suas lembranças da Segunda Guerra Mundial e narrou uma história quase esquecida do ativismo das mulheres do século 20. Eu soube de sua morte súbita em um email-staccato enviado da Bulgária: a Amazona nos deixou. Sua vida abrangeu o fascismo, o comunismo e o clepto-capitalismo, mas ela nunca deixou de ter esperança.

elena com angela davis
(txoman)


"A Amazona" era o seu codinome.  Aos 14 anos, Elena Lagadinova lutou contra a monarquia aliada-dos-nazi na Bulgária, sendo a mais jovem guerrilheira mulher. Décadas depois, sua paixão ajudou a definir o movimento internacional das mulheres durante a Guerra Fria. Outrora celebrada em ambos os lados da Cortina de Ferro, depois das mudanças políticas ocorridas com colapso do comunismo, em 1989, a história de Lagadinova foi esquecida.

Nascida em 1930, Lagadinova era filha de um carroceiro. No início de 1944, ela fugiu de sua terra natal, que pagava fogo, para se juntar ao pai e três irmãos em uma brigada de guerrilheiros antifascistas. "Eu carregava minha pistola roubada numa corrente ao redor do meu pescoço", ela me disse uma vez "para eu não esquecer dela, caso fôssemos atacados enquanto dormíamos".

Quando os comunistas chegaram ao poder na Bulgária em setembro de 1944, a jovem Elena liderou a procissão de partidários vindos das montanhas, em um cavalo branco. Sua imagem foi distribuída em jornais e revistas infantis de Belgrado a Moscou. Meninos e meninas do bloco oriental eram encorajados a serem "corajosos como a Amazona!".

Mais tarde, Lagadinova obteve um doutorado em agrobiologia e trabalhou como pesquisadora até 1967, quando o líder comunista da Bulgária precisou de uma figura carismática para se responsabilizar pelo Comitê de Mulheres. Já uma heroína de guerra, uma estudiosa respeitada e mãe dos três filhos, a Amazona dedicou os próximos 22 anos de sua vida para promover os direitos das mulheres.

Ela já tinha 80 anos quando comecei a entrevistá-la, em 2010. Durante as centenas de horas que passamos sentadas à mesa da sua sala de jantar, Lagadinova me presenteou com suas histórias sobre seus esforços locais e internacionais, em nome das mulheres. Fotos, cartas, recortes de jornais e relatórios oficiais abarrotavam seus armários e gavetas, documentando lutas épicas. Os registros nos arquivos estaduais corroboravam suas memórias.

Os americanos, que hoje lutam para alcançar equilíbrio entre trabalho e família, podem se surpreender ao saber que os búlgaros já faziam progressos substanciais sobre esses problemas mais de quatro décadas atrás. Entre 1969 e 1972, Lagadinova pressionou o politburo dominado pelos homens para expandir os apoios do Estado para as mães que trabalhavam fora. Suas propostas eram dispendiosas, e o Politburo hesitava. "Se vocês não vão me dar ouvidos", disse ela, "podem me enviar de volta ao meu laboratório!".

Graças à persistência de Lagadinova, em 1973 o governo búlgaro emitiu uma lei especial que dava às mulheres uma licença de maternidade generosa (de até três anos por cada criança), com a garantia de que seus empregos seriam mantidos na sua ausência e que os anos de licença-maternidade contavam com aposentadoria. O estado também se comprometeu a construir milhares de novos jardins de infância.

Durante o Ano Internacional das Mulheres das Nações Unidas, em 1975, Lagadinova liderou a delegação búlgara. Ela distribuiu as traduções da nova lei de sua nação, promovendo a ideia de que a igualdade das mulheres não poderia ser alcançada sem o apoio do Estado. Apesar da natureza autoritária do regime, neste campo a Bulgária tornou-se um modelo para outros países e, ao longo dos anos 1970 e 1980, Lagadinova forjou uma coalizão internacional de organizações de mulheres para pressionar os governos a financiarem as licenças-maternidade e as estruturas de acolhimento de crianças.


Lagadinova (no meio)
em 1984


Depois que o Muro caiu, Lagadinova se aposentou da vida pública. Nos últimos 27 anos, ela viveu em uma sociedade que de rapidamente tornou-se hostil aos seus ideais igualitários, mas ela não sucumbiu ao desespero. "Não basta lutar contra as coisas que você odeia", ela insistiu quando a vi pela última vez em maio deste ano, "você deve lutar por aquilo em que acredita".

Para Elena Lagadinova, esse "algo" era igualdade de gênero, e a ideia de que os Estados devem apoiar as mulheres como trabalhadoras e mães. Lagadinova acreditava que os mercados livres sempre colocariam as mulheres em desvantagem devido ao seu papel reprodutivo.

A batalha pela verdadeira igualdade de gênero está longe de terminar. Mas, assim como o lançamento do Sputnik em 1957 estimulou o Ocidente a avanços científicos e tecnológicos, o ativismo das mulheres do bloco oriental, como Elena Lagadinova, provavelmente acelerou o avanço dos direitos das mulheres no Ocidente.

Os países ocidentais poderiam usar desculpas e fazer ressalvas, mas o fato é: apesar de suas muitas falhas, os países comunistas tinham maior igualdade jurídica para as mulheres e um maior apoio às mulheres como trabalhadoras. Até hoje, os Estados Unidos ainda ficam atrás do resto do mundo em aspectos fundamentais e continua sendo um dos poucos poucos países que não possuem uma lei que regule licença parental remunerada.

Em 29 de outubro, Elena Lagadinova morreu enquanto dormia, talvez ainda sonhando com uma época em que as mulheres seriam iguais aos homens. Uma Amazona caiu. Mas graças a seus esforços, há exércitos mais capazes de enfrentar a luta.




* nota da Adelaide: o título original é "The youngest partisan", sendo partisan uma palavra que eu amo em inglês mas em português tanto pode ser "membro de partido" como "guerrilheira". Já que ela era as duas coisas, usei "guerrilheira" no título, pra mantê-lo curto como o original

Friday, December 01, 2017

Por que as mulheres transavam melhor no Socialismo


. texto de Kristen R. Ghodsee (professora de Estudos da Rússia e Leste Europeu na Universidade da Pensilvânia) publicado originalmente no NY Times (eca) em agosto deste ano
. traduzido por Adelaide Ivánova na série "é doutrinação esquerdista suficiente ou tá pouco?", inventada e liderada por ela mesma
. link pro originial em inglês: 

https://www.nytimes.com/2017/08/12/opinion/why-women-had-better-sex-under-socialism.html?_r=0 


family values
chapa da amiga flávio morgado


Quando os americanos pensam no comunismo do leste europeu, eles imaginam restrições de viagem, paisagens sombrias de concreto cinzento, homens e mulheres miseráveis ​ em longas filas para comprar em mercados vazios e serviços secreto perseguindo a vida privada dos cidadãos. Embora muito disso fosse verdade, nosso estereótipo coletivo da vida comunista não dá conta da história toda.

As mulheres do bloco oriental gozavam de muitos direitos e privilégios desconhecidos nas democracias liberais da época, incluindo os principais investimentos do Estado em educação e treinamento, sua incorporação total na força de trabalho, generosas licenças-maternidade e garantia de assistência gratuita à criança. Mas há uma vantagem que recebeu pouca atenção: mulheres sob o comunismo gozavam mais.

Um estudo sociológico comparativo de alemães do leste e do oeste realizado após a reunificação em 1990 descobriu que as mulheres do leste tinham duas vezes mais orgasmos que as mulheres ocidentais. Os pesquisadores ficaram maravilhados com essa disparidade na satisfação sexual relatada, especialmente porque as mulheres da Alemanha de Leste tinham dupla jornada de trabalho -- o formal e o doméstico. Em contraste, as mulheres da Alemanha Ocidental pós-guerra ficaram em casa e gozavam de todos os dispositivos produzidos pela economia capitalista. Mas elas transavam menos e o sexo era menos satisfatório pra elas do que para as mulheres que tinham que entrar na fila para comprar papel higiênico [as do leste comunista].

Como explicar essa faceta da vida por trás da cortina de ferro?

Ana Durcheva, da Bulgária, tinha 65 anos quando a conheci, em 2011. Tendo vivido seus primeiros 43 anos sob o comunismo, muitas vezes se queixava de que o novo mercado livre impediu a capacidade dos búlgaros de desenvolver relacionamentos amorosos saudáveis.

"Claro, algumas coisas foram ruins durante esse tempo, mas minha vida estava cheia de romance", disse ela. "Depois do meu divórcio, eu tinha meu trabalho e meu salário, e não precisava de um homem para me apoiar. Eu podia fazer o que quisesse".

Dona Durcheva foi uma mãe solteira há muitos anos, mas insistiu que a sua vida antes de 1989 era mais gratificante do que a vida de sua filha, que nasceu no final da década de 1970.

"Tudo o que ela faz é trabalhar e trabalhar", disse Dona Durcheva em 2013, "e quando ela chega em casa, à noite, ela está muito cansada para estar com seu marido. Mas não importa, porque ele também está cansado. Eles se sentam juntos na frente da televisão como zumbis. Quando eu tinha a idade deles, nós nos divertíamos muito mais".

No ano passado, em Jena, uma cidade universitária da antiga Alemanha Oriental, conversei com uma jovem recém-casada, de 30 anos, chamada Daniela Gruber. Sua própria mãe -- nascida e criada sob o sistema comunista -- estava pressionando-a para ter um bebê.

"Ela não entende o quanto é mais difícil agora -- era tão fácil para as mulheres antes do Muro cair", ela me disse, referindo-se ao desmantelamento do Muro de Berlim em 1989. "Elas tinham creches e jardins de infância, e elas podiam tirar licença de maternidade sem perder seus empregos. Eu trabalho com contratos temporários, não tenho tempo para engravidar".

Essa divisão geracional entre filhas e mães que atingiram a idade adulta antes e depois de 1989 apóia a idéia de que as mulheres tiveram vidas mais gratificantes durante a era comunista. Essa qualidade de vida vinha, em parte, do fato de que esses regimes consideravam a emancipação das mulheres como central para sociedades que se auto-definiam como avançadas e "cientificamente socialistas".

madonna
bebel
e engels
(doutrina mais que tá pôco!)


Embora os estados comunistas do leste europeu precisassem do trabalho das mulheres para realizar seus programas de industrialização rápida pós-Segunda Guerra Mundial, o fundamento ideológico para a igualdade das mulheres com os homens foi estabelecido por August Bebel e Friedrich Engels já no século 19 [nota da Adelaide #1: textos como "A origem da família, propriedade privada e Estado" (Engels) e "Mulheres no Socialismo" (Bebel) são cheios de passagens problemáticas, anti-feministas e heteronormativas sob uma leitura contemporânea, mas esses textos set the tone para uma mudança radical na percepção das mulheres como sendo seres políticos e civis]. Após a tomada do poder pelos bolcheviques, Vladimir Lênin e Aleksandra Kollontai permitiram uma revolução sexual nos primeiros anos da União Soviética, com Kollontai argumentando que o amor deveria ser liberado de considerações econômicas.

(LEIAM ALEXANDRA KOLLONTAI!)

A Rússia concedeu direito de voto às mulheres em 1917, três anos antes dos Estados Unidos. Também liberalizaram as leis de divórcio, garantiram direitos reprodutivos e tentaram socializar o trabalho doméstico investindo em lavanderias públicas e cantinas populares. As mulheres foram mobilizadas para a força de trabalho e se tornaram financeiramente independentes dos homens.

Na Ásia Central na década de 1920, as mulheres russas lutaram pela libertação das mulheres muçulmanas. Esta campanha verticalizada encontrou uma violenta reação de patriarcas locais que não queriam ver suas irmãs, esposas e filhas libertas dos grilhões da tradição.

Na década de 1930, Joseph Stalin retirou grande parte do progresso qu a União Soviética tinha alcançado do que diz respeito aos direitos das mulheres -- proibindo o aborto e promovendo a família nuclear. No entanto, a grave escassez de mão-de-obra masculina que se seguiu à Segunda Guerra Mundial estimulou outros governos comunistas a avançar com vários programas para a emancipação das mulheres, incluindo pesquisa científica patrocinada pelo Estado, sobre os mistérios da sexualidade feminina. A maioria das mulheres da Europa de Leste não podia viajar para o Ocidente ou ler jornais d'uma imprensa livre, mas o socialismo científico trouxe alguns benefícios.

"Já em 1952, os sexologistas checoslovacos começaram a fazer pesquisas sobre o orgasmo feminino e, em 1961, realizaram uma conferência exclusivamente dedicada ao tema", disse Katerina Liskova, professora da Universidade Masaryk na República Checa. "Eles se concentraram na importância da igualdade entre homens e mulheres como componente central do prazer feminino. Alguns até argumentaram que os homens precisam compartilhar o trabalho doméstico e a criação de filhos, caso contrário, não haveria bom sexo".

Agnieszka Koscianska, professora associada de antropologia na Universidade de Varsóvia, me disse que os sexologistas poloneses pré-1989 "não limitaram o sexo às experiências corporais e enfatizaram a importância dos contextos sociais e culturais para o prazer sexual". Foi a resposta do socialismo para o equilíbrio entre o trabalho e a vida: "Mesmo a melhor estimulação, argumentaram, não ajudará a alcançar o prazer se uma mulher estiver estressada ou sobrecarregada, preocupada com o futuro e a estabilidade financeira".

Em todos os países do Pacto de Varsóvia, a imposição da regra do partido único precipitou uma revisão abrangente das leis relativas à família. Os comunistas investiram grandes recursos na educação e treinamento das mulheres e na garantia de seu emprego. Os comitês estatais de mulheres procuraram reeducar os meninos para aceitar meninas como camaradas e tentaram convencer seus compatriotas de que o machismo era um remanescente de um passado pré-socialista.

Embora as disparidades salariais de gênero e a segregação do trabalho persistissem e, embora os comunistas nunca tenham reformado completamente o patriarcado doméstico, as mulheres comunistas gozaram de um grau de auto-suficiência que poucas mulheres ocidentais poderiam ter imaginado. As mulheres do bloco oriental não precisavam se casar, ou fazer sexo, por dinheiro. O estado socialista encontrou suas necessidades básicas e países como a Bulgária, a Polônia, a Hungria, a Tchecoslováquia e a Alemanha Oriental comprometeram recursos adicionais para apoiar mães solteiras, divorciadas e viúvas. Com as notáveis ​​exceções da Romênia, da Albânia e da União Soviética de Stalin, a maioria dos países da Europa Oriental garantiu o acesso à educação sexual e ao aborto. Isso reduziu os custos sociais da gravidez acidental e reduziu os custos de oportunidade de se tornar mãe.

Algumas feministas liberais no Ocidente reconheceram com relutância essas realizações, mas criticaram as conquistas do socialismo estatal, porque elas não emergiram de movimentos de mulheres independentes, mas representaram um tipo de emancipação verticalizada. Muitas feministas acadêmicas hoje celebram a escolha, mas também abraçam um relativismo cultural ditado pelos imperativos da interseccionalidade. Qualquer programa político de cima para baixo, que procure impor um conjunto universalista de valores, como a igualdade de direitos para as mulheres, está seriamente fora de moda.

Infelizmente, o resultado é que muitos dos avanços da libertação das mulheres, conseguidos nos países que integraram o Pacto de Varsóvia, foram perdidos ou revertidos. A filha adulta de Dona Durcheva e a jovem Daniela Gruber agora lutam para resolver os problemas da vida profissional que os governos comunistas resolveram para suas mães, no passado.

"A República me deu a minha liberdade", disse-me Dona Durcheva, referindo-se à República Popular da Bulgária. "A democracia retirou essa liberdade". [nota da Adelaide #2: acho que aqui ela devia ter dito "capitalismo", néam].

Quanto a Daniela Gruber, ela não tem ilusões sobre as brutalidades do comunismo da Alemanha Oriental; ela simplesmente deseja que hoje em dias "as coisas não fossem tão difíceis".

Porque elas defendiam a igualdade sexual -- no trabalho, no lar e no quarto -- e estavam dispostas a fazer dela uma imposição, as mulheres comunistas que ocupavam cargos no aparelho estatal poderiam ser chamadas de imperialistas culturais. Mas a libertação que elas impuseram transformaram radicalmente milhões de vidas em todo o mundo, incluindo as de muitas mulheres que ainda caminham entre nós como mães e avós de adultos nos atuais membros democráticos da União Européia. A insistência das camaradas sobre a intervenção do governo pode parecer pesada à nossa sensibilidade pós-moderna, mas às vezes as mudanças sociais necessárias - que logo se vê como a ordem natural das coisas - precisam de uma proclamação de emancipação de cima.


Thursday, November 30, 2017

"quem é que limpa aqui?" (entrevista de bini adamczak para o jornal freitag)


ilustra de ms. adamczak
pro seu livro "comunismo pra crianças"
inédito em brasileiro
alor editoras plmdds



entrevista de Florian Schmid com Bini Adamczak*
tradução do alemôo por Adelaide Ivánova**

link pro original: https://www.freitag.de/autoren/der-freitag/wer-macht-hier-sauber-1

O que liga a grande revolução comunista com as revoltas dos anos 60 e 70? Foram os objetivos nobres, e as formas como estes foram perseguidos, o motivo pelo qual elas não se tornaram realidade? Em Beziehungsweise Revolution. 1917, 1968, publicado pela Suhrkamp, ​​Bini Adamczak tenta desconstruir o dualismo de conceitos [da teoria marxista] como Contradição Principal e Contradição Secundária, Igualdade e Liberdade. Conversamos com a autora sobre isso.

Você escreve sobre a Revolução Russa e sobre 1968. Como esses dois eventos se unem em seu livro?
O século 20 foi marcado por essas duas ondas globais de revolução. Entre um e outro houve o nazismo mas também o estalinismo. 1968 foi uma repetição de 1917, que estava ligado a tradições ultrapassadas que foram destruídas pelo nazismo e transformadas em seu exato oposto pelo estalinismo. Mas 1968 também tenta se diferenciar de1917. O foco central, que em 1917 era a igualdade, muda: a liberdade vira o foco. Eu acho que 1968, a Nova Esquerda, tornou-se o prisma com o qual estudamos 1917 hoje em dia.

Você entende a Revolução de 1917 e os acontecimentos de 1968, como revoluções que deram errado. Mas o decorrer de ambas foram muito diferentes?
O fracasso é algo que vem da observação externa [de um evento]. Já o erro, por outro lado, é medido de acordo com os padrões internos [de um evento]. A revolução russa não foi esmagada pela contra-revolução; os socialistas foram vitoriosos na guerra civil. Mas, apesar de terem derrotado o inimigo externo, não conseguiram tornar em realidade suas próprias ideias do que era uma sociedade socialista ou uma vida comunista. Eles falharam em seus padrões internos porque, focados em ganhar, eles se tornaram tão disciplinados e autoritários que a razão pela qual eles iniciaram a revolução foi esquecida. Em 1968 a coisa muda. A onda revolucionária de 68 rodou o mundo.

Mas 1968 foi realmente uma revolução, como 1917, ou uma série de revoltas?
Ambos começam na periferia, rodam o mundo e terminam nos centros. Em 1917 foi a Alemanha, em 1968 foi a Europa e os EUA, mas 1968 começou nas batalhas contra o colonialismo, o Vietnã e a Argélia. Em nenhum lugar há vitória, ainda que no México e na França chegou-se perto de derrubar os governos. Mas, embora a revolução não seja vitoriosa, é muito bem sucedida no que diz respeito à transformação da sociedade.

No livro você diz que quer oferecer nada menos do que "um final alternativo para a trágica história das revoluções", com a ajuda da palavra "Beziehungsweise". O que isso quer dizer? [nota da Adelaide: Beziehungsweise é composta de duas palavras: Beziehung, que significa relação ou relacionamento; e Weise, que significa maneira. A tradução oficial e uso seria respectivamente, ou seja, melhor dizendo ou consequentemente, mas em todas falta essa ideia de "formas de relacionar-se", então vou utilizar aqui, por falta de um substantivo melhor, "co-relação", mas não é ideal!].
Interpreto as ondas revolucionárias de 1917 e 1968 sob à luz da Revolução Francesa, que foi quando o conceito de revolução surgiu. A Revolução Francesa veio ao mundo com o conceito de liberdade, igualdade e solidariedade.

Você não quer dizer "fraternidade"?
Sim, mas censuro essa palavra com uma piscadela feminista e chamo-a de "solidariedade" [nota da Adelaide #2: fraternité/fraternidade é traduzida para o alemão como Brüderlichkeit, sendo que Brüder é irmão, conferindo à palavra um tom masculinizado, hegemônico e não-inclusivo, e por isso a implicância da autora, que tá mais é certa!]. 1917 centra-se na igualdade, sendo seu contrário a homogeneização e totalitarização, o estalinismo. 1968 centra-se na liberdade, na diferença, sendo seu contrário a individualização, a fragmentação da sociedade. O slogan de Margaret Thatcher ("Não conheço mais a sociedade, mas apenas indivíduos e famílias") é a implementação disso. Ainda que diferentes em seus objetivos, em ambas as revoluções a solidariedade esteve presente, especialmente em letras de músicas, na produção cultural, que cria afetos, que leva as pessoas  às ruas, para ajudar uns aos outros, para sair da solidão e lutar juntos.

Não é a solidariedade algo fundamental para qualquer movimento emancipatório? Dificilmente um folheto da esquerda é escrito sem que apareça este termo.
Sim, mas a solidariedade foi muitas vezes percebida apenas como instrumento, tipo na formulação "Unidos venceremos, divididos perderemos". Pouco foi pensando que a solidariedade é também o objetivo da revolução. Criar relações solidárias entre as pessoas. 1917 focava-se no Estado; 1968, no sujeito. Isso também tem a ver com o fracasso [das revoluções], que reposicionou o foco para iniciativas menores, o que resulta, nos anos 70 e 80, num movimento de declínio, em que as pessoas dizem "precisamos mudar a nós mesmas, e depois a sociedade". Uma nova [percepção da] interioridade. Ambas as perspectivas [a do Estado e a do Sujeito] levaram a uma armadilha. A primeiro levou ao estalinismo, a segunda levou à individualização e fragmentação da sociedade e da Esquerda, que tem cada vez mais dificuldades de compreender a co-relação de seus diversos problemas. O conceito de co-relação tenta oferecer uma saída para esse dilema. O que as revoluções emancipatórias realmente tentam não é nem reinventar o todo em sua totalidade, nem criar um novo homem. Em vez disso, o foco está na transformação das relações, na forma que nos relacionamos, que interagimos uns com os outros. E isso eu examino particularmente usando relações sociais de gênero.

O gênero desempenha um papel central na sua análise. Classicamente, a esquerda viu a questão do gênero como uma contradição secundária. Você vai além disso. Isso é realmente novo?
Muitos antes já fizeram o diagnóstico de que em 1917 igualdade significava igualdade para os homens. Examino esse processo em áreas muito diferentes: na literatura, nos discursos médicos e científicos, na moda, nos corpos, na reprodução. O que há de novo é a constelação dentro da qual eu posiciono 1968. 1917 visa uma masculinização universal. Mas é somente através da lente do feminismo queer que reconhecemos a natureza radical deste modelo de emancipação. Não era simplesmente a ideia de que as mulheres se tornassem como homens, mas que continuassem a existir como dois gêneros. Com a ajuda de Judith Butler e outros, podemos ver que o objetivo desta revolução era, de fato, fazer com que todas as pessoas fossem homens. Em contraste com 1917, 1968 não sugere uma feminização geral, mas uma feminização diferencial. Isso significa que a feminilidade se torna mais dominante do que era antes e pode sair do domínio do consumo, da reprodução e do trabalho doméstico, onde antes estava limitada, para ocuper espaço na vida pública.

Mas como isso muda uma rebelião coletiva? Como isso parece na prática?
Isso faz com que, no debate político, as questões de reprodução não sejam afastadas. "Quem faz a limpeza?", "em qual privada sentamos?". Estas questões não são secundárias e possibilitam [focar] o que é realmente político, já que a divisão social burguesa sempre tenta nos desfocar. Na divisão social burguesa, todas estas questões são deixadas de lado para que se possa falar sobre [o que a divisão social burguesa considera] política. Não. Essas coisas são políticas sim, devem ser politicamente debatidas e, se não for assim, são privatizadas como tarefas típicas do feminino e transformadas em não-políticas. No momento em que essas áreas não-políticas são politizadas, qualquer protesto torna-se feminista. Então, já é sobre a crítica das relações de gênero.

Existem atualmente desdobramentos políticos, nos quais as co-relações desempenhem um papel?
Sim, vimos isso na última onda emancipatória de 2011, que rolou na metade do mundo, e mais recentemente na França com o Nuit Debout. Esta onda significou que as relações entre as pessoas foram alteradas. Não é coincidência que a palavra de ordem desse movimento seja "encontro". As pessoas se encontrem em público, ocupem o espaço público e não fazem demandas. As pessoas dizem: "Nós somos nossas demandas". Trata-se de mudar o relacionamento, "perder o medo um do outro", como um ativista de Occupy Wall Street escreveu. Uma mudança nos relacionamentos das pessoas já está ocorrendo. Este ativista descreve como ele sempre viveu com medo das pessoas lá fora. Você tem que se proteger, há crime, você tem que desconfiar dos outros. Você vive com os outros na base da concorrência. E então ele percebeu que ele estava falando com pessoas de quem ele tinha medo, e elas também tinham medo dele. Mas juntos, os medos podem ser reduzidos. Passa a existir uma relação de solidariedade que não é mais hierárquica, mas democrática.





*Bini Adamczak trabalha (de preferência não muito) como escritora, performer e artista visual. Estudou filosofia em Frankfurt e agora mora em Berlim.  Como muitas meninas em sua posição, ela sonha em fazer algo "real" ou "com as mãos" - por exemplo, para fazer uma revolução. Seu livro "Kommunismus. Kleine Geschichte wie alles anders wird", de 2004, foi traduzido pro inglês com o título "Communism for children" ("Communismo pra crianças"), e publicado pela MIT Press em 2017.

**Adelaide é anarcobucetalista e está trabalhando voluntariamente na tradução deste livro pro brasileiro e procura animada e incansalvemente uma editora que esteja disposta a publicá-lo.

Monday, November 06, 2017

mppf! #6 especial poesia caribenha sapoti/sapatão em tradução e sendo vendida online à base de doação yeah


nada me autoriza muito a editar esse zine a não ser desejo de ser menos ignorante em relação aos nossos vizinhos e vizinhas poetas caribenhos. a ideia de fazer essa edição nasceu da minha ignorância. tudo o que eu sabia sobre o caribe era que rihanna é de barbados. e já que transar é a medida de todas as coisas no meu mundo, fui atrás de desconhecer menos o caribe por meio de sua poesia erótica contemporânea.


capa

contra-capa
(tubinhos, gente!)



encontrei um livro chamado caribbean erotic (da editora peepal tree), de contos, ensaios e poesia, de onde tirei 9 dos 11 poemas dessa edição (menos rihanna e raquel salas rivera). um dos ensaios desse livro é o de imani m. tafara ama, “normas e tabus da sexualidade” no qual, entre outras coisas, ela trata das relações de poder e gênero dentro da cultura popular na jamaica – mais precisamente do dancehall. imani aponta como as “dancehall queens” distorcem conceitos burguês de decência, ao mesmo tempo em que tentam se ajustar às demandas sexistas e misóginas dos “rudeboys” – espécie de gangue masculina dentro do dancehall e que eu só conhecia por causa da música de riri (orgulhosamente traduzida nessa edição).

capa do zine, com ilustração de gerard fortune (haiti)


a leitura do ensaio me despertou mais curiosidade sobre a situação da mulher caribenha, pela semelhança que vi entre o que imani descreve e as manifestações culturais no brasil.

durante as pesquisas, descobri que 1/3 das caribenhas já sofreu violência sexual e que, segundo a ONU, os índices de violência doméstica no caribe estão bem acima da média mundial, com 3 países do caribe na lista dos 10 com maiores índices de estupro do mundo. aí fiquei me perguntando: qual a relação da mulher caribenha com o brasil? ela existe?

pois existe: segundo o CONARE (comitê nacional para os refugiados), os países com maior número de solicitantes de refúgio no brasil em 2016 foram venezuela (3.375), cuba (1.370), e haiti (646), todos países caribenhos (também estão na lista além angola e síria). não encontrei dados sobre a quantidade de mulheres por país solicitante mas, do total de cerca de 10 mil refugiados no brasil, 32% são mulheres. o caribe está entre nós. as mulheres caribenhas estão entre nós.

pode parecer disparatado eu estar falando disso num editorial de um zine véi de poesia pornô, mas não é: não bastasse eu ser mulher, esse zine tem uma preocupação civil. seria impensável publicar o trabalho de mulheres caribenhas sem abordar um pouco questões atuais das vidas dessas populações, além da literatura (até porque literatura e política não são coisas separadas). são conexões difíceis de traçar, mas que fazem parte da preocupação minha e das pessoas que ajudam esse zine a existir. assim sendo, o “lucro” das vendas desse zine (entre aspas porque né, lucro é o que faz a monsanto, nóis do zine junta umas moeda) será doado para a equipe de base warmis – convergência de culturas, grupo de mulheres imigrantes e brasileiras que lutam pelos direitos de imigrantes mulheres.



o valor sugerido das doações é a partir de R$ 3, mas você pode doar menos ou mais. daí você recebe um pdf do zine no seu email. caso não tenha paypal (#bitchplease!), mande email para bolagato.edicoes@gmail.com e te mando os dados da conta-corrente da warmis.

uma vez que você receber seu zine, pode imprimi-lo, xerocá-lo, fazer o que quiser com ele, quantas vezes quiser. essa edição do zine foi feita em formato retrato A4 exatamente para que você possa imprimir as páginas avulsas e colá-las nas paredes do seu mundo.

não acreditamos em copyright, só em human rights.

beijos,
adelaide




a edição #6 do MAIS PORNÔ, POR FAVOR! tem poemas de afua cooper (jamaica), aurora ferguson (bahamas), colin robinson (trinidad y tobago), lelawattee manoo-rahming (trinidad y tobago), omi j. maya taylor-holmes (não achei país nem ano), raquel salas rivera (porto rico), rihanna (barbados), rosamond s. king (não achei país nem ano), sajoya (jamaica), sandra garcía rivera (porto rico/eua) e paula obé (trinidad y tobago) traduzidos por rafael mantovani (caruaru brinks são paulo), andré capilé (barra mansa), carol morais (recife), angélica freitas (pelotas), mafalda gomes (porto), j. carlos teixeira (porto), chris daniels (oakland), cecília floresta (são paulo), nina rizzi (campinas) e adelaide ivánova (recife). 

o MPPF! é um zine independente, anarcobucetalista, que se apropria do termo "pornografia" para espalhar no mundo poesia erótica queer e feminista (brasileira, portuguesa e em tradução), com o objetivo de torcer a lógica misógina, sexista, transfóbica, homofóbica e capitalista do pornô mainstream.

Monday, October 23, 2017

coisas que não posto mais no facebook, semana #2


essa semana a postagem vai ser mais longa, porque tava de férias, e um pouco auto-centrada, porque enquanto estive de férias trabalhei que só a porra haha e quero me amostrar (até porque tenho que manter a fama de egocêntrica, né mores).





0. semana passada, junto com mafalda sofia gomes e j. carlos teixeira, co-editores do MPPF! #5 (especial pornô-portugal), a gente fez o lançamento do zine na confraria vermelha livraria de mulheres, no porto. teve leitura dos poemas, conversinhas sobre poesia putaria e portugal e, como era dia das escritoras (dia, aliás, que nasceu a filha de andré capilé! viva gaia!), a poeta alemã-que-escreve-em-português chrischa venus oswald leu um poema do seu livrinho lindo, "sal".

foi foda mas o mais importante é que vocês conheçam e apoiem o projeto anarcobucetalista da grande aida suárez gutierrez, dona da livraria e uma das organizadoras do festival feminista do porto! sério, que mulher foda.


meus filhos carlos e mafalda e eu rindo
porque uma mamãe sempre fica feliz perto da família

casa cheia

vitor teves um dos poetas do zine
com o poema-tetas de patricia lino


aida explicando o beabá da vida pra mim e pro comunista


o comunista com o martelo
e eu adorando ele
como sempre
(fotos roubadas de inês afonso lopes)

1. esse fim de semana que passou participei da latinale, o festival itinerário de poesia latinoamericana na alemanha. na programação: paula abramo, ofelia huamanchumo de la cuba, lina nieves avilés, agustina ortiz, tilsa otta, mayra oyuela, tálata rodríguez, jannet weeber brunal, alejandro tarrab, alejandro álverez nieves, andrés anwandter, frank báez, jorge ernesto centeno vilca, benjamin chávez e miguel ángel petrecca. 

desses, meu coração bate assanhado com os trabalhos de paula abramo (imensa, maravilhosa, mel dels), tilsa otta, alejandro tarrabofelia huamanchumo de la cuba


paula lendo alejandro tarrab
(que não pôde estar presente por causa dos furacões no méxico :/)

catálogo do festival
(amamos esse nome)

um poema de tilsa otta


um poema de paula

um poema de adelaide
#egocêntrica


um poema de ofelia



1.2
PROS AMIGOS BRASILEIROS NA ALEMANHA (porque precisa de um número de celu alemôo):
a revista alba está precisando de ajuda para continuar existindo! a alba faz um trabalho lindo e incansável de tradução e divulgação da literatura latinoamericana na alemanha.

pra ajudar as meninas a ganhar mil euros e continuar realizando esse trabalho, basta votar no projeto delas neste site aqui (você colocar o número do celu, recebe um código por SMS e insere o código no site).

ajudem a alba

plmmds!


2.
entre setembro, outubro e novembro sou co-editora da revista gueto. sugeri mais de 20  anarcobucetalistas (perdi as conta na real) e até agora tem:
ravena monte, do ceará
thaiz cantasini, de goiás
regina azevedo, do rio grande do norte
cecília floresta, de são paulo
patrícia naia, de são paulo vivendo em pernambuco
jarid arraes, do ceará vivendo em são paulo

tem também pollyana furtado, do pará, que eu não conhecia e foi sugestão dos editores da revista. que maravilha é ver tanta mulé não-sudestina dando bucetada no mundo.


3. 
os cadernos do cep #5, editado por julia klien, que tem carolina luisa costa, clara de góes, cristina flores, rita isadora pessoa (vulgo mygirl) e eu foi lançado esses dias no CEP 20.000 (amém). quem quiser comprar, (vale cada centavo), mande mensagem pro italo diblasi que ele sabe.



4.
esses podcasts comunistas
(te dedico, zacca)

5.
esse artigo maravilhoso de regina dalcastagnè, profa da UnB, toca, entre outras coisas, num assunto que insisto sempre: são paulo não é o brasil -> a produção cultural do "brasil" (são paulo) tampouco não é o brasil.

Em 30 de dezembro de 1904, Euclides da Cunha escrevia ao seu pai desde Manaus: “a mais consoladora surpresa do sulista está no perceber que este nosso Brasil é verdadeiramente grande porque ainda chega até cá. Realmente, cada vez mais me convenço de que esta deplorável Rua do Ouvidor é o pior prisma por onde toda a gente vê a nossa terra”. A crítica perspicaz do autor apontava o risco de se reduzir a percepção sobre a realidade do país a essa perspectiva tão estreita. Infelizmente, 120 anos depois, e usando a Rua do Ouvidor agora apenas como uma metáfora da arrogância de certa elite intelectual dos centros mais desenvolvidos do país, precisamos continuar alertando: o Brasil chega muito mais longe do que costumamos imaginar.

uma coisa importante de falar do trabalho da professora: ela faz questão de se fazer entender, usando uma linguagem acessível a acadêmicos e não-acadêmicos. palmas.

6.
a atualidade dessa entrevista das guerrila girls, de 10 anos atrás mostra que, infelizmente, o trabalho delas ainda é necessário.

 


7.
saiu o catálogo da exposição "humble cats", pela yoffy press, do qual participo com aquela foto de vovó. 


vovó à esquerda

capa (bela)

8.
no dia 4 de outubro, meu amigo rafael mantovani me mandou essa carta, que na verdade era de caio fernando abreu pra hilda hilst, e salvou a minha vida:


Hildinha, a carta para você já estava escrita, mas aconteceu agora de noite um negócio tão genial que vou escrever mais um pouco. Depois que escrevi para você fui ler o jornal de hoje: havia uma notícia dizendo que Clarice Lispector estaria autografando seus livros numa televisão, à noite. Jantei e saí ventando. Cheguei lá timidíssimo, lógico. Vi uma mulher linda e estranhíssima num canto, toda de preto, com um clima de tristeza e santidade ao mesmo tempo, absolutamente incrível. Era ela. Me aproximei, dei os livros para ela autografar e entreguei o meu Inventário. Ia saindo quando um dos escritores vagamente bichona que paparicava em torno dela inventou de me conhecer e apresentar. Ela sorriu novamente e eu fiquei por ali olhando. De repente fiquei supernervoso e sai para o corredor. Ia indo embora quando (veja que GLÓRIA) ela saiu na porta e me chamou: - “Fica comigo.” Fiquei. Conversamos um pouco. De repente ela me olhou e disse que me achava muito bonito, parecido com Cristo. Tive 33 orgasmos consecutivos. Depois falamos sobre Nélida (que está nos States) e você. Falei que havia recebido teu livro hoje, e ela disse que tinha muita vontade de ler, porque a Nélida havia falado entusiasticamente sobre Lázaro. Aí, como eu tinha aquele outro exemplar que você me mandou na bolsa, resolvi dar a ela. Disse que vai ler com carinho. Por fim me deu o endereço e telefone dela no Rio, pedindo que eu a procurasse agora quando for. Saí de lá meio bobo com tudo, ainda estou numa espécie de transe, acho que nem vou conseguir dormir. Ela é demais estranha. Sua mão direita está toda queimada, ficaram apenas dois pedaços do médio e do indicador, os outros não têm unhas. Uma coisa dolorosa. Tem manchas de queimadura por todo o corpo, menos no rosto, onde fez plástica. Perdeu todo o cabelo no incêndio: usa uma peruca de um loiro escuro. Ela é exatamente como os seus livros: transmite uma sensação estranha, de uma sabedoria e uma amargura impressionantes. É lenta e quase não fala. Tem olhos hipnóticos, quase diabólicos. E a gente sente que ela não espera mais nada de nada nem de ninguém, que está absolutamente sozinha e numa altura tal que ninguém jamais conseguiria alcançá-la. Muita gente deve achá-la antipaticíssima, mas eu achei linda, profunda, estranha, perigosa. É impossível sentir-se à vontade perto dela, não porque sua presença seja desagradável, mas porque a gente pressente que ela está sempre sabendo exatamente o que se passa ao seu redor. Talvez eu esteja fantasiando, sei lá. Mas a impressão foi fortíssima, nunca ninguém tinha me perturbado tanto. Acho que mesmo que ela não fosse Clarice Lispector eu sentiria a mesma coisa. Por incrível que pareça, voltei de lá com febre e taquicardia. Vê que estranho. Sinto que as coisas vão mudar radicalmente para mim – teu livro e Clarice Lispector num mesmo dia são, fora de dúvida, um presságio. Fico por aqui, já é muito tarde. Um grande beijo do teu

Caio.
aliás, leiam rafael mantovani:
na modo
no escamandro


9.
essa semana sai o MPFF! #6 especial poesia caribenha! preciso terminar de costurar hehe.

com auto-retrato de riri












Friday, September 29, 2017

coisas que não posto mais no facebook, semana #1


1. essa foto de 1910 de clara zetkin e rosa luxembrugo, que ia postar depois das eleições de domingo na alemanha, em que o AfD, o partido de extrema direita, ganhou 94 lugares no parlamento:



2. texto novo, publicado hoje na coluna da revista pessoa, sobre a grande érica zíngano:

com a colaboração de vovó




3. a entrevista com adília lopes

foto de joana dilão





4. esses dizeres de mariana enriquez no artigo de mariana sanchez na edição de setembro do suplemento pe:

"nas artes ou na realidade, quase todos os vilões são homens, dos ditadores aos monstros e assassinos seriais. é engraçado que este protagonismo não lhes incomode, mas ser um marido incapaz de satisfazer sua mulher -- o que ocorre em pelo menos 50% dos casos --, isso, sim, lhes incomoda".

e logo em seguida faz um comentário sobre 'feminismo Beyoncé':

"é fácil ser feminista a partir deste lugar de poder que, aliás, é bastante masculino. a mulher maravilha, por exemplo, é um soldado. eu não queria reproduzir este modelo que pensa a mulher como uma deusa satisfeita sexual, financeira e filosoficamente (porque ninguém o é, nem a beyoncé)".

eu aliás tô obcecada com essa mulher, essa mariana enriquez. alguém já leu esse livro dela e pode me mandar seu exemplar usado de presente plmdds?




5. esse link sobre zines feministas na indonésia

6. essa maravilha:

 

7. um screen shot do meu google drive:

comuna deusa




Thursday, September 28, 2017

diz-me o nome da seita, angélica freitas


quando estava escrevendo o texto sobre angélica freitas para o suplemento pernambuco, pedi pra 25 poetas brasileiras me mandarem textinhos curtos, de até 5 linhas (claro que elas não conseguiram - mas a culpa é de angélica haha) sobre a relação delas com "um útero é do tamanho de um punho". nem todas conseguiram ou puderam enviar algo e, das 17 que toparam, não deu pra publicar todas, por falta de espaço mesmo :/

então publico aqui, na íntegra, os depoimentos dazamigas fazendo essa public display of affection pra angélica.

o artigo está na edição de setembro de 2017 do suplemento pe.



ANA MARTINS MARQUES (MG)

Em Um útero é do tamanho de um punho, Angélica Freitas adota o caminho arriscado de incorporar (e desviar) o clichê, a frase feita, o lugar comum (que ela capta tanto nas canções populares quanto por meio do dispositivo de busca do google). A desmontagem dos estereótipos se dá na linguagem, em poemas em geral curtos e cortantes, que incorporam a sátira, o jogo, o nonsense, embaralham referências literárias e da cultura de massas, demonstrando que dimensão política e trabalho de linguagem não são necessariamente antagônicos, que o humor não afasta a reflexão, o cômico não impede o desvelamento da violência, a aparente leveza e simplicidade podem conviver com a tensão e a complexidade.

São poemas políticos, sem dúvida, mas não é fácil reduzi-los a um slogan ou retirar deles algum discurso claro e inequívoco: assim como a boia mencionada em um dos textos, que não se explica, se usa, nesses poemas interessa menos um discurso que os antecederia e explicaria do que os procedimentos que acionam, os efeitos que são capazes de produzir, as forças que podem pôr em movimento. E também, talvez sobretudo, o prazer da leitura e a surpresa e a alegria da linguagem que eles são capazes de proporcionar.

Um amigo livreiro certa vez me contou que Um útero era o livro mais roubado na livraria. A informação me agradou (como curiosamente agradava também o livreiro), mas não me surpreendeu: quem rouba livros, imagino, são sobretudo jovens estudantes, meninas e meninos com pouco dinheiro, muito desejo de conhecer e pouco gosto por solenidades. É compreensível que Um útero se torne para eles um objeto de desejo. Talvez o que mais impressione na poesia da Angélica seja essa capacidade de falar ao mesmo tempo a jovens recém-chegados à praia da poesia e a poetas e leitores experientes, que encontram na sua poesia forças novas, uma lufada de ar.


CECILIA FLORESTA (SP)

“diz-me com quem te deitas/ angélica freitas”, amélias, rosângelas, robertas, solanges, denises, cristinas, carolinas, cecílias.

um útero caiu nas minhas mãos faz uns anos já, não por acaso. foi o primeiro livro que me fez pensar numa literatura nacional fancha e eu me lembro de ler cada um dos poemas incansavelmente (ainda hoje o faço) porque ali encontrei contrários, que Angélica jamais deixa espaço pro não-dito, essa instância tão presente na literatura feita por mulheres para mulheres. a força lesbiana dos poemas da Freitas me ajudou a dar voz aos meus próprios e me apontou o caminho pra estrada que hoje traço: visibilizar a literatura lésbica brasileira.


ERICA ZINGANO (CE)

A Adelaide me pediu pra escrever algumas linhas sobre o livro da Angélica. O que o livro causou em mim. Mas eu vou escrever um pouco mais, não tenho mais facebook, perco muitas vezes a linha. Mas eu vou falar meio por cima, ok? Um esmalte que cobre a unha cobre a unha sempre por cima. 5 a 8 linhas? Por cima. Começa aqui (mentira), Começa assim (mentira). O livro dela foi lançado em 2012. Eu comprei em 2012. Em Lisboa. Naquela livraria da Cotovia eu acho. Ou alguém mandou do Brasil pra mim? Não consigo me lembrar. Se você está lendo e você me deu esse livro de presente me desculpe. Ou você foi um atravessador? Não me lembro. Eu li em Lisboa. Porque eu morava em Lisboa. Faz mais de 5 anos. Em Lisboa, isso é um clichê, mas é verdade: é minha Senhôra, é Rapariga. É bicha, é fila. É um clichê sobre as nossas diferenças, mas para eles é normal. Também tenho um outro livro que fala de mulher logo assim, de cara. Aliás, muitos livros não param de falar de mulher. E têm outros que não falam de mulher de jeito nenhum, mas a mulher está lá. Mas daí entender como é que eles tão falando de mulher ou não tão falando de mulher já é outro rolê. E que mulheres são essas? É Maria, é Madalena, são as Mulheres de Atenas? São a Marcha das Mulheres? São as Madres de Mayo? É a Medusa? É a Mil uma utilidades? É negativo, é positivo, é zona de perigo? Esse outro livro que eu tava falando é do Péter Esterházy. Chama “Uma mulher”. Também foi lançado pela Cosac. Em 2010. Na “uma mulher (6)”, lemos logo no começo: “[…] E se trata de uma mulher limpa, ou seja [apesar de ter mau hálito, a mulher 6 tem mau hálito], tudo acontece em meio a uma abundância de escovação de dentes, não raro de um excesso de pastas de dentes” (continua). Lembro do poema sereia, não sei se é uma sereia, se é o do ovo do micro-ondas, mas tem a pasta Colgate e a dentatura. Não sei se está nesse livro. Ou se foi publicado depois. Eu não vou entrar muito em detalhes, mas vou ser um pouco spoiler do final, porque o texto do Esterházy termina assim: “[…] Mas isso não é importante [o fato de ele ser louco por ela e ela, a mulher 6, não ter descoberto isso ainda], o importante é que eu [ele, o narrador personagem participativo do texto da mulher 6] possa vê-la.” É. Digamos que 50% do trabalho já foi feito. Ver/ reconhecer/ perceber/ dar-se conta já é um começo. Mas ver também já é um abismo. Tem o ponto cego, o trompe l’oeil etc. Abre um outro tipo de abismo. O que é que você vê, quando você vê? O que é que você lê quando você lê? Vamos começar de novo: “Uma mulher limpa.” Eu escrevi no final do poema dela assim, "limpinha". Uma mulher é uma mulher é pau pra toda obra. A Angélica me deu de presente a Susana Thénon. Sem ela saber. Sem ninguém saber. Os melhores presentes são os presentes surpresa.



KATIA BORGES (BA)

Olha, eu fiquei realmente muito feliz quando foi lançado Um útero é do tamanho de um punho, porque, sabe como é, eu gostava muito da Angélica Freitas bem antes. Então é como fosse se um segredo que ganha o mundo. Mas, claro, Angélica Freitas ganhou o mundo de cara com Rilke Shake, que antes de ter em mãos, lia os poemas nos blogs em que ela escrevia e tal. E, quando saiu, entrevistei Angélica em Salvador, de olho naquela estética forte. E, de certo modo, aquele apreço se manteve resistência. Tem sempre um antes, e antes, eu havia participado de uma oficina de criação com ela e a convidei para abrir um sarau que eu tinha por aqui. Angélica é mesmo essa força, porque ela não se rende e está de olho no fluxo das coisas. Não tem medo da poesia, entende? E tasca um verso assim: “você é mulher e se de repente acorda binária e azul e passa o dia ligando e desligando a luz?”. E se você pergunta qual é a sua? Eu digo que sim, que essa menina é das minhas.


MARIA ISABEL IORIO (RJ)

Eu sempre ficava de recuperação em biologia, eu gosto muito de biologia, essa matéria do corpo. Eu sempre quis escrever sobre mulher, eu gosto muito de mulher, mas nunca soube dizer do que é feita, onde cabe, pra onde vai. Esbarrei nO útero é do tamanho de um punho e logo assustei possível, chegar, assim tão perto, do que somos e nunca seremos. A poesia da Angélica é olho da diferença. Se coloca, antes, lugar – que chance de nascimento, pra gente, é no braço – depois se abre, e extende, os dedos. Talvez não exista lá muita biologia: mas ficamos sabendo certo que a mulher, em geral, ao cuspir sentia-se muito melhor.


FERNANDA MORSE (RJ)

A ginecologista falou que meu útero é pequenininho, mas Angélica Freitas diz que um útero é do tamanho de um punho. Já sabemos em quem devo acreditar. Angélica, a propósito, assume não só o risco de ter contra si as leis das ciências biológicas mas também as leis da poesia e do machismo nosso de cada dia. Nunca me senti tão alegre com um desconforto como quando li os seus poemas. Os peritos da sacra literatura se roem e os machos se enervam enquanto Catulo goza esteja ele onde estiver. O caráter provocativo, satírico e, tantas vezes, até pueril dos poemas parece querer aplacar todo tipo de fetichização que pode existir acerca dos assuntos tratados, da imagem da mulher, da vida cotidiana, para abordá-los em sua crueza ora niilista e dura, ora cômica e nonsense.

PATRICIA LINO (PORTUGAL)

O Útero foi apresentado em Portugal pela primeira vez em 2013. Nós, as que o tínhamos podido ler antes, sabíamos o quão ele era urgente. Também sabíamos que, quando a Angélica assinava os exemplares acrescentando ao título um ponto de interrogação, “O útero é do tamanho de um punho?”, a pergunta era retórica. O Útero é de uma inteligência e sensibilidade mordazes, de um humor que faz engolir em seco — desconfortável e terno; o Útero é a representatividade pela qual, sem saber, esperei durante décadas (que foram, na verdade, séculos e milénios). É, em língua portuguesa, o começo de um novo discurso poético que vive desse ponto de interrogação: quem continuamos a deixar de fora?



REGINA AZEVEDO (RN)

O livro “Um útero é do tamanho de um punho”, da Angélica Freitas, me pegou de jeito aos 12 anos. Achei um exemplar meio escondido em uma livraria em Natal, onde as estantes de poesia parecem ser ainda menores. Na primeira página que abri, o poema “mulher de regime”, cuja personagem se chama Regina. E nos anos seguintes, nas páginas seguintes, caminhei sabendo que há muito de mim – e de todas nós – nesse livro: o útero da Angélica é um útero de muitas mulheres. É um livro pra não sair da mochila, um livro pra ser falado e lido.


GABRIELA POZZOLI (SP)

Do punho fechado ao útero, que me fazem sempre associar a luta, o título já me encantou, assim como a capa com suas costuras & rastros. “Uma mulher boa é uma mulher limpa” – aos poucos, prosseguia a leitura com meus olhos enfeitiçados e com uma espécie de raiva, me identificando com as letras e sensações, sendo eu, uma mulher feia, suja, ruim. Do que nos esperam enquanto ‘limpas’, ‘higienizadas’, ‘boas’, também me sobressalto com os papeis de gênero que não recordo de ter assinado contrato algum me comprometendo a ser, demarcados na maternidade com cores impostas que não foram minha escolha, bem como condutas. Queria eu ser mulher barbada, desconstruída de outra maneira, sem esse útero, sem esse binarismo. Demora um tanto aprender que há mulhereS, no plural. Anti-heroicas, fora do modelo, da forma, padrão. É toda uma pressa na qual desde cedo aprendemos, por amores e dores, que útero, antes de tudo, além de marcado na alma, também é arma.


ESTELA ROSA (RJ)

Conheci Angélica Freitas não sei bem como. Sei que, em um primeiro momento, o que me encantou nela foi o bigodinho. Pensava sempre no bigodinho, aquele poema do Rilkeshake, seu primeiro livro. O bigodinho era a metáfora perfeita para uma série de coisas na vida, pensava queria ter um bigodinho metafórico. Quando peguei um útero na mão (dia desses falei para uma amiga que eu tinha um útero em pdf) entendi de fato o segredo metafórico do bigodinho. Na verdade, lá atrás, um útero me disse que com bigodinho eu poderia ser uma mulher suja. Um útero, um punho e eu suja com o meu bigodinho. Podem jogar no Google: uma mulher suja é uma mulher de bigode. E com uma mulher de bigode, bem, cês já sabem.


YASMIN NIGRI (RJ)

Feminismo e poesia brasileira: impressões sobre Um útero é do tamanho de um punho
Estabeleci um contato mais estreito com a poesia em 2015, ano em que conheci Um útero, por intermédio de um amigo, numa mesa de bar. Folheei o livro e logo de cara encontrei o poema da mulher limpa, na contracapa outro poema genial falava da mulher mais ou menos bonita. Fiz campanha pra que o livro fosse estudado na oficina que eu frequentava, me comprometi a entrar em contato com a autora e convidá-la a estar presente. Angélica estava viajando, mas topou uma entrevista por email. A partir daí mergulhei cada vez mais no seu trabalho, culminando na redação de um artigo apresentado na Abralic em 2016 e uma nova entrevista feita esse ano será vinculada na Revista Caliban. Artigo: http://www.abralic.org.br/anais/arquivos/2016_1491264022.pd


ANA KIFFER (RJ)
pilhagem poética em voltagem sublime

1.flagre como os discursos tornam-se verdades e consensos; 2.saqueie esse mesmo conjunto – frases, ditados, interjeições rítmicas da infância afásica; 3.agora meu véio mostre a que veio – assuma a sua estatura. estou aí quando leio A. Freitas. antes da onda feminista de hoje. ao mesmo tempo numa certa espiral do modernismo “pau”- brasil que contra/põe o útero – em forma de punho. que apunhala os nossos clichês. deslocamento radical do sentido instituído no que há de mais vulgar – um certo ar sublime vigora nessa inversão tática: uma poética da crueza. comigo condiz. cansada do cozimento brando e incessante das nossas carnes. 



JULIA RAIZ (PR)

Quando eu abri o Um útero é do tamanho de um punho pela primeira vez, numa página aleatória, lembro de ter pensado que nunca tinha lido nada igual. Alguns anos depois, quando comecei a dar aula no cursinho solidário “Tô Passada”, iniciativa do Transgrupo Marcela Prado em Curitiba, decidi dar aula de literatura a partir da ideia de amor na poesia. Era um recorte pretencioso que começava no século XIX e chegava na produção contemporânea. A discussão mais marcante foi por causa do último poema lido: “eu durmo comigo”, principalmente, porque todo mundo cabia naquele “eu”. No mesmo dia a turma escreveu e compartilhou outros poemas sobre amor. Foi legal demais!


MICHELINY VERUNSCHK (PE)

Era 2013 e eu estava no Festival da Mantiqueira, em São Francisco Xavier, interior de São Paulo. Eu já havia lido sobre “O útero é do tamanho de um punho”, de Angélica Freitas, e o que havia lido não era nada elogioso. Numa noite, comprei o livro em uma tenda e o levei comigo. No dia seguinte, fui almoçar sozinha, o livro e eu. E o li inteiro ali mesmo e compreendi o motivo de ele ser tão atacado. Poesia em alta voltagem sobre o que é ser mulher numa sociedade patriarcal. Esse livro tem uma potência que me impressiona. É um documento importante sobre a barbárie mas, sobretudo, não perde em carga poética. É um livro para o presente e para o futuro.


BRUNA MITRANO (RJ)

lembro, com incontinência de riso aqui, do incômodo que o livro causou, como causa uma mulher suja, “porque uma mulher boa/é uma mulher limpa”, como causa “uma mulher gorda”, como causa uma mulher “gorda e bêbada”, como causa uma mulher escrevendo. “eu vim pra incomodar”, né, Karol Conka? viemos. a Angélica veio. é um levante. nada faz parar mais, não.


JARID ARRAES (CE)

Vejo “Um útero é do tamanho de um punho” como um livro de combate. Ele te diz a que veio já de cara e acho muito significativo que associe o útero à força, briga – assim, na capa. Coisa que se repete nele inteiro. É um livro de luta. Em muitos poemas, é um livro de raiva, de grito. E ao mesmo tempo tem um humor que me despertou muita identificação. Sempe acho bonito quando vejo mulheres o descobrindo porque chegam atraídas por esse tom, e aí também acabam descobrindo a poesia como uma possibilidade de ser entendida, de fugir de qualquer padrão de escrita poética, ou do que se relaciona à poesia geralmente. Percebo esse livro como uma porta que se abre para que mulheres escrevam poesia que morde, ri e ainda abre mais caminhos.


CARLA DIACOV (SP)

as mulheres de O Útero é do Tamanho de um Punho vieram se somar às mulheres que tenho espalhadas pelo corpo e pelo corpo do caminho até aqui (minha mãe, minhas avós, tias, primas, namoradas e minhas outras carlas nas fotografias dos acontecimentos). essas mulheres se instalaram, estão aqui, de mãos dadas com as minhas. essas mulheres todas estão em debate o tempo todo e lendo e relendo os poemas restauramos passagens, momentos em que me fiz valer do PunhoÚtero, da imensa força gerada desde o todo fêmea, que precisa, constantemente, estar de útero empunhado. intuitivamente e então com o livro, reconheci e pude batizar as várias ocasiões-porrada em ser mais uma mulher num mundo macho. posso afirmar que O Útero é do Tamanho de um Punho alimenta minhas tantas reentradas nesse mundo. O livro está em constante diálogo com minhas mulheres. é bonito o rebuliço.