Thursday, March 15, 2018

albert camus


se alguém tivesse me dito que seria assim
eu não teria acreditado
guerras civis
crise econômica
fim do mundo
eu e você
sobrevivemos a tudo isso
entre as nossas guerras
civis
as nossas crises
econômicas
os fins
dos nossos mundos
as separações
eu
no meu mundo
você
algures
se alguém tivesse me dito que seria assim
eu não teria acreditado
vinte anos
algumas guerras
aquecimento global
um golpe
outro golpe
eu e você no mundo

e ainda assim eu não teria acreditado:
sobrevivemos à adolescência
a maior das guerras
pais mortos mães
e eu não teria acreditado

se alguém tivesse me dito que seria assim
eu teria pensando
essas coisas só acontecem nos filmes
nas novelas
e nas novelas

eu nunca teria acreditado que apesar dos silêncios
desse dedo indicador na boca
sobreviveríamos
aos golpes
um
e outro
e um
ao outro

perdemos os melhores amigos
nossos melhores amantes
e apesar de tudo
ficamos
eu e você
no mundo
inabaláveis
inconcebíveis

sobrevivemos à morte
ao exílio
e nem isso
por abstração
ou vontade
nos termina

eu e você
existimos
um projeto impossível
incompleto e,
ao que parece, eterno

vinte anos é o tempo
de vida dos castores
dos porco-espinho
dos pardais
e de outros projetos que desconheço
e como eles
aqui estamos
na cidade
vinte anos depois
esvaziando copos
sem conseguir pagar a conta
perdendo o último metrô
mas aqui estamos
e não desistimos

apesar de tudo

você vai pro mundo
eu vou pra casa
separados por uma bússola
uma cidadania
um passaporte que não compartilho
mas unidos pelo desejo de não morrer
nem de estar
separados

eu te celebro
tua juventude
a que aparentas e a que trazes
contigo
a doçura da qual nunca fui destinatária
mas na qual confio:

eu sei que ela está aí

te levo comigo
como sempre te trouxe
nunca não estiveste
sempre comigo
numa tatuagem que não era pra você
mas que devia ter sido

te celebro
como nunca te deixei de celebrar
e te agradeço
todos os dias
por tudo
foste o primeiro homem
e ainda és

Wednesday, February 14, 2018

Precisamos de um feminismo para os 99%. É por isso que entraremos em greve neste ano



. tradução do manifesto "We need a feminism for the 99%. That's why women will strike this year", de Linda Alcoff, Cinzia Arruzza, Tithi Bhattacharya, Rosa Clemente, Angela Davis, Zillah Eisenstein, Liza Featherstone, Nancy Fraser, Barbara Smith e Keeanga-Yamahtta Taylor, publicado no The Guardian em 27 de janeiro de 2018
. traduzido por adelaide ivánova na série "é doutrinação esquerdista suficiente ou tá pouco?", inventada e liderada por ela mesma




marcha de 8 de março de 2017 em são paulo
em foto de santarosa barreto


Em 8 de março, entramos em greve contra a violência de gênero, contra os homens que cometem violência e contra o sistema que os protege 


No ano passado, no dia 8 de março, nós, mulheres de todos os tipos, fizemos passeatas, paramos de trabalhar e tomamos as ruas em 50 países em todo o mundo. Nos EUA, nos reunimos, marchamos, deixamos os pratos para os homens lavarem, tanto nas principais cidades do país, como nas menores. Nós fechamos três distritos escolares para provar ao mundo, mais uma vez, que, se somos nós que sustentamos a sociedade, também temos o poder de parar tudo.

8 de março está chegando e as coisas pioraram para nós como mulheres neste país.

Em um ano da administração do Trump, nós não somente sofremos abusos verbais e ameaças misóginas em declarações oficiais, como também o regime Trump implementou políticas que continuarão a nos atacar de maneira profundamente institucional.

A Lei de Cortes Fiscais e Emprego acaba com isenções que beneficiam trabalhadores com baixos salários, dos quais a grande maioria são mulheres. A Lei almeja acabar com o Medicaid e Medicare, os únicos dois programas que sobraram nesta cruel paisagem neoliberal, programas estes que apoiam os idosos e os pobres, os doentes e pessoas com necessidades especiais, o planejamento familiar e as crianças - e, portanto, as mulheres, que sao as que fazem o trabalho de cuidar destas pessoas. E enquanto a Lei retira o direito à saúde para crianças imigrantes, introduz o conceito de poupança para que "crianças não nascidas" possam ir à uma universidade no futuro [nota de Adelaide #1: nos EUA o ensino superior é privado e caríssimo], uma forma sorrateira de estabelecer por lei "direitos" da "criança não nascida", agredindo nosso direito fundamental de tomar decisões sobre nossos corpos.

Mas isso não é tudo.

Com estas múltiplas declarações de guerra abertas contra nós, não nos acovardamos. Nós lutaremos.

Quando, no fim do ano passado, mulheres com visibilidade pública e acesso à mídia internacional decidiram quebrar o silêncio sobre assédio e violência sexual, as comportas foram finalmente abertas e um fluxo de denúncias públicas inundou a web. As campanhas #Metoo, #UsToo e #TimesUp tornaram visível o que a maioria das mulheres já conhecia: seja no local de trabalho ou em casa, nas ruas ou nos campos, nas prisões ou nos centros de detenção, a violência de gênero, com seu impacto diferencial racista, assombra a vida cotidiana das mulheres.

O que também ficou claro é que o silêncio público sobre algo que sempre conhecemos, sofremos e lutamos contra, não existe simplesmente porque temos medo ou vergonha de falar: o silêncio é uma imposição. É imposto pelas leis do Congresso que fazem com que as mulheres passem por quase um ano de aconselhamento e mediação obrigatórios, se elas se atreverem a fazer uma queixa oficial. É imposto pelo sistema de justiça criminal que rotineiramente descarta a palavra das mulheres, usando camadas adicionais de intimidação e violência. Nas universidades, os administradores encontram jeitos espertinhos e "legais" para proteger a instituição e o estuprador, enquanto jogam as vítimas para os lobos. As bases racistas destes procedimentos legais exigem solução.

#Metoo, #UsToo e #TimesUp não expõem apenas indivíduos estupradores e misóginos, eles rasgaram o véu que esconde as instituições e as estruturas que protegem esses indivíduos.

A violência de gênero racial é internacional, e internacional deve ser também a luta contra ela. O imperialismo, o militarismo e o colonialismo dos EUA promovem a misoginia em todo o mundo. Não é por acaso que Harvey Weinstein usou a empresa de segurança Black Cube, composta por antigos agentes do Mossad e outras agências de inteligência israelenses, em seus longos anos tentando silenciar e aterrorizar as mulheres. Sabemos que o mesmo Estado que envia dinheiro a Israel para brutalizar o palestino Ahed Tamimi e sua família também financia as prisões nas quais mulheres afro-americanas como Sandra Bland, dentre outras, morreram.

Então, em 8 de março, vamos entrar em greve contra a violência de gênero - contra os homens que cometem violência de gênero e contra o sistema que os protege.

Acreditamos não ter sido por acaso que foram nossas irmãs em [mais alta] posição social que tornaram visível o que todas nós já conhecemos. Elas têm mais meios para fazê-lo, do que a nossa irmã de baixo salário, muitas vezes mulher de cor, que limpa os quartos dos hotéis chiques em Chicago ou a irmã agricultora nos campos californianos.

A grande maioria de nós não pode falar porque não temos poder coletivo em nosso local de trabalho, nem temos, fora do local de trabalho, acesso a apoio social, como por exemplo serviços de saúde. O trabalho, mesmo com seu salário baixo, com colegas e chefes abusivos, com suas longas jornadas, torna-se a única coisa que tememos perder, já que é o único meio que temos para colocar comida na mesa das nossas famílias e cuidar de nossos doentes.

Nós não mantemos a boca fechada [por vontade própria]. Somos obrigados a manter nossas bocas fechadas pelo capitalismo.

Então, no dia 8 de março, falaremos em primeira pessoa contra os agressores individuais que tentaram arruinar nossas vidas e falaremos coletivamente contra a insegurança econômica que nos impede de falar.

Vamos entrar em greve porque queremos expor nossos abusadores, um a um. E vamos entrar em greve porque precisamos de bem-estar social, empregos e salários para alimentar nossas famílias, bem como o direito de sindicalizar, caso sejamos demitidas por confrontamos os abuso.

Assim, em 8 de março, vamos entrar em greve contra o encarceramento em massa, a violência policial e os controles nas fronteiras, contra a supremacia branca e as guerras imperialistas dos EUA, contra a pobreza e a violência estrutural escondida que fecha nossas escolas e nossos hospitais, envenena nossa água e comida e nos rejeita a justiça reprodutiva.

E entraremos em greve por direitos trabalhistas, a igualdade de direitos para todos os imigrantes, a igualdade de remuneração e um salário digno, porque a violência sexual no local de trabalho aflora exatamente onde faltam esses métodos de defesa coletiva.

8 de março de 2018 será um dia do feminismo para os 99%: um dia de mobilização de mulheres negras e de cor, mulheres cis e bi, lésbicas e trans, dos pobres e da baixa renda, de cuidadores não remunerados, de profissionais do sexo e migrantes.

Em 8 de março, #WeStrike.

assinam Linda Alcoff, Cinzia Arruzza, Tithi Bhattacharya, Rosa Clemente, Angela Davis, Zillah Eisenstein, Liza Featherstone, Nancy Fraser, Barbara Smith, Keeanga-Yamahtta Taylor

Monday, January 22, 2018

mas pelo menos o capitalismo é livre e democrático, néam?



. trecho do texto "but at least capitalism is free and democratic, right?", de erik olin wright (é um omi, foi mals) publicado no livro "the abcs of socialism"
. traduzido por adelaide ivánova na série "é doutrinação esquerdista suficiente ou tá pouco?", inventada e liderada por ela mesma



essa foto nao tem nada a ver
com esse texto mas pus aqui
pra atrair cliques



nos eua, muitos têm certeza que liberdade e democracia estão inevitavelmente conectados com capitalismo. milton friedman, no seu livro "capitalismo e liberdade", chegou a dizer que capitalismo era uma condição necessária para [a existência de] ambos.

sim, é verdade que o aparecimento e dispersão do capitalismo trouxe consigo uma expansão tremenda de liberdades individuais e, eventualmente, lutas populares por mais formas democráticas de organização política. assim sendo, dizer que o capitalismo obstrui tanto liberdade quanto democracia soa estranho para muitas pessoas.

dizer que capitalismo restringe o crescimento desses valores não significa dizer que capitalismo é contra liberdade e democracia em tooodas as instâncias. É o contrário: no funcionamento de seus processos mais fundamentais, o capitalismo gera déficits severos tanto para a liberdade quanto para  a democracia, danos esses que o capitalismo tampouco pode remediar. foi o capitalismo que promoveu o surgimento de certas formas, ainda que limitadas, de liberdade e democracia, mas foi também o capitalismo que impôs muitas limitações ao desenvolvimento de ambas.

(...)

há cinco formas em que essas limitações se tornam aparentes:

1) "trabalhe ou morra de fome" não é liberdade

o capitalismo está ancorado na [relação entre] acumulação privada de riqueza e procura por salários. as desigualdades econômicas que resultam dessas atividades "privadas" são intrínsecas do capitalismo e criam outras desigualdades que o filósofo philippe van parijs chama de "liberdade real".

o que quer que signifique "liberdade", dentro de sua definição deve estar inserida a habilidade de dizer "não". uma pessoa rica pode livremente decidir se ela quer ou não trabalhar em troca de um salário; uma pessoa pobre sem um meio independente de subsistência não pode tomar essa decisão tão facilmente.

mas o valor de liberdade é mais profundo que isso. também é a habilidade de agir positivamente para a realização de seus próprios projetos -- ou seja, não somente poder decidir quais repostas, mas também quais perguntas você quer fazer.

os filhos de pessoas ricas podem fazer estágios não-remunerados para avançar nas carreiras; os filhos de pais pobres, não.

nesse sentido, o capitalismo tira sim muita liberdade das pessoas. pobreza e abundância existem por causa de uma equação direta entre recursos materiais e os recursos necessários para a autodeterminação. [nota da adelaide #1: o que ele quer dizer é: só tem a tal da autodeterminação quem tem dinheiro pra comprar ela haha]

2) capitalistas decidem

no capitalismo, a forma como o limite entre público e privado é criado impede que decisões cruciais, que afetam grandes quantidades de pessoas, sejam decididas democraticamente. talvez o direito mais fundamental que as empresas privadas têm é o direito de decidir investir ou desinvestir com base estritamente no seus próprios interesses.

a decisão de uma corporação, de investir em um lugar e não investir em outro, é uma questão privada, muito embora essa decisão tenha um impacto radical nas vidas de todas as pessoas, em ambos os lugares. mesmo que uma pessoa argumente que essa concentração de poder na iniciativa privada é necessária para a alocação eficiente de recursos, excluir esse tipo de decisão do controle democrático dizima a capacidade de autodeterminação -- exceto para aqueles que possuem capital.

3) jornada de 8 horas é tirania

empresas capitalistas estão autorizadas a terem ambiente de trabalho ditatoriais. uma parte essencial do poder do dono da empresa é o direito de dizer aos seus contratados o que fazer. essa é a base do contrato de trabalho: o candidato concorda em seguir as ordens de um dono de empresa em troca de um salário.

claro, um dono de empresa pode dar aos trabalhadores autonomia, se ele quiser, e em algumas situações essa é a forma de aumentar mais ainda os lucros. mas essa mesma autonomia é dada ou retirada de acordo com o bel-prazer de um dono de empresa [nota da adelaide #2: aquela balelinha do silicon valley de jornada de cinco horas de trabalho e ambiente de trabalho mais amigável com mesa de pingue-pongue e blablabla não é pensada pra melhorar a vida do trabalhador ATE PQ AS MUIE CONTINUA SENDO PAGA 30% MENOS NEAM, nem tem como objetivo dividir a riqueza produzida pelo trabalhadores, entre os trabalhadores. essa balela é pensada para a) aumentar a produtividade para que b) aumente-se os lucros que c) NAO SERAO divididos entre os trabalhadores que aumentaram os mesmo lucros. mais sobre isso no livro "the new spirit of capitalism", que eu nao li ainda haha]. ora, uma concepção real de autodeterminação não permitiria que autonomia dependesse da preferencia das elites.

um defensor do capitalismo poderia responder que um trabalhador que não goste das regras do seu chefe tem sempre a possibilidade de pedir demissão. mas já que trabalhadores, por definição, não são donos de formas independentes de subsistência, se ele pedir demissão terá que procurar por um novo trabalho, onde terá que se submeter a regras de um outro dono de empresa.

4) governos estão a serviço do interesse de capitalistas

controle das empresas em decisões importantes sobre onde serão feitos investimento cria uma pressão constante nas autoridades publicas, para que estas tomem decisões favoráveis aos interesses dos capitalistas. a ameaça de desinvestimento e mobilidade do capital é sempre um pano de fundo para discussão das políticas públicas e assim, políticos, qualquer que seja sua orientação ideológica, são forcados a se preocupar em sustentar um "bom clima para os negócios". [nota da adelaide #3: mais para frente, em parte deste texto que não traduzi, wright escreve: “um setor publico forte e investimentos estatais podem enfraquecer a ameaça de retirada do capital” ;) #lula2018].

valores democráticos tornam-se vazios enquanto uma classe de cidadãos tiver prioridade sobre a outra.

5) elites controlam o sistema político

por último, gente rica tem mais acesso ao poder politico do que outras. esse é o caso em todas as democracias capitalistas, ainda que esse fenômeno seja maior em alguns países do que em outros.

os mecanismos específicos para conseguir mais acesso ao poder político variam: contribuição em campanhas políticas, financiar lobbies; formas variadas de network das elites; propinas e outras formas de corrupção.

nos eua, tanto indivíduos ricos como corporações capitalistas, não encontram qualquer restrição para a forma como usam recursos privados com objetivos políticos. esse acesso diferenciado ao poder político anula o princípio mais básico de democracia.

essas consequências são endêmicas do capitalismo enquanto sistema econômico.

(...)

as características antidemocráticas e anti-liberdade do capitalismo podem até ter paliativos, mas não podem ser eliminadas. domar o capitalismo com paliativos foi o objetivo central das políticas dos socialistas dentro de economias capitalistas. mas se liberdade e democracia são nossos objetivos, o capitalismo não pode ser apenas domado. tem que ser eliminado.


FIM!


Thursday, January 11, 2018

calendário bucetoterrorista educacional antifeminicida 2018



gastone, presente!



a bolagato edições anarcobucetalistas
(vulgo eu)
fez um calendário com aniversários
e biografias de 14 ativistas brasileiras da pá-virada
que foram assassinadas pelo Estado brasileiro.
são mulheres que lutaram contra a ditadura militar,
ativistas camponesas,
sindicalistas e quilombolas.
me foquei nas bucetalistas esquecidas
dessas histórias, o que significa 
basicamente
as nordestinas e as não-brancas.
o calendário pode ser adquirido
com doações de R$ 10,
via paypal,
e você recebe um pdf pra imprimir
em casa (e um vídeo com
orientações de como
montar seu calendário).

nós encorajamos 
você a xerocar e a dar de presente
pra todas as suas migas.
o valor de R$ 10 é pra
ajudar a manter meu trabalho
de ativista e de editora terrorista de biquíni.





se você não tiver paypal,
mande email para bolagato.edicoes@gmail.com
e eu passo os dados da minha cuenta.

screen shot do pdf
tudo meio magenta
tudo meio tosco
que é como tem que ser


bucetalismos

Monday, December 18, 2017

No México, a ANUEE, uma associação de consumidores de energia elétrica está se transformando num movimento de mulheres


Energia e rosas
No México, uma associação de consumidores de energia elétrica [a ANUEE] está se transformando num movimento de mulheres.

. artigo de Cinzia Arruzza, professora assistente de Filosofia na New School, publicado na revista Jacobin em dezembro de 2017
. traduzido por Adelaide Ivánova na série "é doutrinação esquerdista suficiente ou tá pouco?", inventada e liderada por ela mesma
. link pro original: https://jacobinmag.com/2017/12/mexico-energy-privatization-anuee-sme 

. ATENZIONE: eu achei o texto MUITO mal-editado, no que diz respeito à cronologia dos fatos que culminaram na criação do movimento. Assim, troquei a ordem dos parágrafos, sem mudar em absoluto seu conteúdo. Confiem em mim, ficou melhor. 


essa foto de frida kahlo
não tem absolutamente nada a ver com esse artigo
é apenas pra atrair mais cliques no facebook
e PARA LEMBRAR QUE FRIDA ERA COMUNISTA
E NAO ESTAMPA DE SHOPPING BAG
#piriguetismodeguerrilha



Em 1936, o SME (Sindicado Mexicano de Eletricistas), com uma greve que deixou toda a Cidade do México sem luz, obteve uma grande vitória contra os patrões, a empresa canadense-britânica Mexican Light. Com isso, e após a nacionalização do sistema energético em 1960, o sindicato tornou-se um ponto de referência para o sindicalismo radical e politicamente independente e, nos últimos anos, promoveu a criação da Nova Confederação dos Trabalhadores (NCT) e de uma nova coligação política, a OPT (Organização Política do Povo e dos Trabalhadores), atualmente envolvida na campanha presidencial de María de Jesús Patricio Martínez, uma indígena zapatista [nota da Adelaide #1: em breve este artigo sobre ela, traduzido neste vodca!].

A atual luta pela energia pública e acessível remonta à década de 1990, quando o governo de Salinas de Gortari privatizou 40% da geração de energia, abrindo o mercado do México para empresas transnacionais com sede em Espanha.

À medida que a oposição dos trabalhadores à privatização cresceu, os desejos das elites de derrotar a oposição e abrir o caminho para seus projetos de "modernização" cresceu também. Em 2009, em uma tentativa de destruir o Sindicato, o governo de Felipe Calderón liquidou a empresa pública de energia Light and Power, enviando o exército e força policial para fechar o local. Ele deixou dezenas de milhares de trabalhadores sem emprego.

No mesmo ano, o SME convocou os consumidores a mobilizar-se contra a privatização do setor de energia, que tinha provocado aumento das tarifas de eletricidade, impossíveis de pagar. Em 2010, a ANUEE  (Assembléia Nacional de Usuários de Energia Elétrica) nasceu, fruto desta mobilização. 

Em 2013, o governo de Peña Nieto impulsionou novas reformas energéticas, incluindo uma emenda constitucional legalizando o processo de privatização. Os principais beneficiários dessas medidas são as empresas multinacionais espanholas Iberdrola, Unión Fenosa e Endesa, que colhem 70% dos lucros do setor de energia privada. No entanto, desde a negociação do Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA), os Estados Unidos também desempenharam um papel fundamental ao pressionar os governos mexicanos na privatização de setores estratégicos.

Este é o contexto em que a ANUEE cresceu. A ideia por trás da sua criação foi combinar a luta dos trabalhadores com a mobilização no âmbito da reprodução social. A organização agora possui uma participação de mais de 100 mil famílias e pequenas empresas e organizou centenas de ações, tornando-se um importante personagem no movimento de re-nacionalização do sistema energético. Também promoveu formas de desobediência civil, convidando a população a não pagar contas de energia e bloqueando as tentativas das empresas de cortar a luz dos usuários inadimplentes. 

Ao longo dos anos, suas posições mudaram, indo de pedido de perdão de dívidas e taxas justas, para a reivindicação de energia enquanto direitos humanos, vinculando essa demanda a uma crítica mais abrangente ao capitalismo neoliberal. Em 2017, com uma ocupação de 46 dias na Comissão Federal de Eletricidade (CFE), o movimento conseguiu uma vitória importante na luta contra o aumento das tarifas.

Entre os ganhos: a promessa do governo de perdoar a dívida pendente, que em alguns casos atingiu até 15.800 dólares, e a promessa que os consumidores possam escolher qual empresa querem contratar como provedora de energia [nota da Adelaide #2: tipo como a gente faz no Brasil com nosso provedor de internet]. Isso permitiria que os membros da ANUEE fossem atendidos pela nova cooperativa da União Mexicana dos Trabalhadores Elétricos, que cobraria uma "taxa social", que garantiria o direito dos cidadãos ao acesso à energia. Até o momento da escrita deste texto, no entanto, o governo não somente não cumpriu suas promessas, como iniciou uma campanha para criminalizar o movimento.

Durante as semanas da ocupação, os ativistas da ANUEE organizaram marchas e aulas públicas, bem como uma atividade educacional de uma semana dedicada à história das lutas femininas no México. Apenas alguns meses antes, a ANUEE havia mobilizado um contingente de quatro mil pessoas para a Greve Geral de Mulheres, em março deste ano.

Isso é fundamental, porque são as mulheres que moldaram a trajetória radical da ANUEE.

[nota da Adelaide #3: ainda que a ANUEE tenha mais de 100 mil membros e que a ocupação tenha durado 46 dias e tenha conseguido tantos avanços, é MUITO difícil encontrar informação sobre o assunto nos jornais locais. Obviamente isso não é por acaso, né, mores].



Transformado através da luta
Em 11 de novembro de 2017, centenas de pessoas da ANUEE se reuniram para um evento sobre seu novo movimento feminista, no auditório do SME. Este edifício tem longa história de militância, com um mural colossal de José David Alfaro Siqueiros, que trabalhou no seu "Retrato da burguesia" entre 1939 e 1940, até ter sido forçado a fugir do país depois de participar de uma tentativa de assassinato a Leon Trotsky.




As mulheres são maioria nos protestos, e um número cada vez maior de classe trabalhadora e mulheres pobres assumem liderança da organização. Alejandra, uma jovem que se juntou à ANUEE em 2012, explicou que a maioria do movimento é feita por mulheres, porque são as mulheres que estão nas casas. Elas são as responsáveis ​​por cuidar dos membros da família, pela reprodução social e pelo sustento básico. O acesso à energia determina suas condições do dia-a-dia.

Para muitas delas, essa foi sua primeira experiência política, e uma que as transformou. Juanita, ativista de Hidalgo que se juntou à ANUEE há sete anos, descreveu como essa experiência mudou sua vida:

ANUEE me ajudou a me libertar do meu medo e lutar. Tenho filhos e estou lutando por eles, para lhes dar um teto, educação, comida. Não é fácil, mas sinto-me orgulhosa de pertencer à ANUEE. Minha filha agora me entende, meus filhos resistiram no início, mas agora eles entendem que temos que lutar por nossos direitos, pelo nosso futuro. Estamos lutando por aqueles que virão atrás de nós.

O movimento levou uma série de mulheres a sair de suas casas e começar a viver uma vida pública pela primeira vez, participar e organizar reuniões e marchas. Isso provocou uma remodelação da vida familiar e dos papeis de gênero dentro da família, embora não sem resistência dos membros da família. Ter que enfrentar essa oposição levou as mulheres ativistas a ver sua participação no movimento como contendo um significado existencial e político, o que ultrapassa a luta pela energia pública e acessível. Veronica, coordenadora voluntária da ANUEE, explicou como seus anos no movimento remodelaram sua percepção de si mesma:

Meu pai era um sexista, ele não me permitiu estudar ou trabalhar. Não tenho carreira, tenho dois filhos e um marido, e sou a única mulher na minha família. Eles não entendem meu compromisso, como eu me tornei um coordenadora e tenho reuniões, atividades. . . Antes disso, passava a maior parte do tempo com meus filhos, mas agora tenho que sair e meus filhos não entendem.

Eles estão começando a entender, porém, que eu tenho que me perceber como uma mulher. Quero ensinar-lhes que, se alguém tem a vontade, também tem o poder e que, se alguém começa alguma coisa, então precisa terminá-la. Quero ensiná-los como homens, pois a ideia deles é que as mulheres deveriam ficar em casa.

Em alguns casos, a falta de apoio de maridos e parceiros levou a separações. Esta é a experiência de Maria, que deixou seu parceiro por causa da oposição dele à participação dela, no movimento:

Faço parte da luta e não quero desistir. Estou lutando pelo bem-estar dos meus filhos e pelo futuro dos meus netos. Aprendi que é possível estar sozinha: não dependo de ninguém que possa me dizer para não ir a uma marcha ou a trabalhar, dependo apenas de mim mesma. Nós somos mulheres fortes, somos guerreiras, porque sabemos que haverá um preço a pagar, já que nada é fácil, mas quando ganhamos, quando marchamos juntas e cantamos "Sim, nós podemos"... Tudo isso vale a pena...

Para outras, como Miriam, outra coordenadora, assumir um papel de liderança, organizando protestos e reuniões, teve uma função terapêutica, após uma separação: "Isso me ajudou. Meus filhos me ajudam. Ensino-os a lutar e, agora, quando eu vou a uma marcha ou a uma reunião, eles me pedem para contar tudo sobre o que eu fiz e como foi".

Apesar do número de mulheres que participaram da organização, a ANUEE decidiu recentemente criar um comitê de coordenação das mulheres, que ainda não está incorporado no estatuto. Como explicou Rosario, uma veterana organizadora feminista, as mulheres enfrentaram resistência não apenas dentro de sua família, mas também na organização. Por exemplo, alguns ativistas do sexo masculino resistiram à introdução dos direitos e lutas das mulheres entre os temas do trabalho educacional, usaram insultos sexuais contra as mulheres que tiveram desentendimentos políticos com eles e ofereceram escasso apoio às mulheres que assumiam funções de liderança.

Além disso, ainda que o número de mulheres em cargos de liderança tenha aumentado nos últimos anos, ainda não reflete o número de mulheres que participam do movimento. Margarita, membra do órgão nacional de coordenação, informou que alguns ativistas do sexo masculino ignoraram sua liderança enquanto ela era responsável por uma ocupação. "Eles não aceitaram que eu tinha esse papel. Precisamos desempenhar nosso papel agressivamente, caso contrário, os homens não nos levam em conta, não nos respeitem ", disse ela. "Meu pai era muito sexista, mas isso me ensinou a resistir, para dizer que eu, como mulher, eu sou igual aos homens, eu valho o mesmo. Eu tenho um filho, e ele aprendeu a respeitar as mulheres ".

Este outono, a ANUEE organizou centenas de ocupações simbólicas de escritórios e plantas locais de energia. Isso culminou, no dia 16 de novembro, com uma marcha de 20 mil pessoas contra a privatização e exigir a implementação definitiva da taxa social, que a ANUEE ajudou a ganhar.

Mobilizações como essas são cruciais porque, embora o movimento tenha feito alguns ganhos, o projeto de modernização do governo está em andamento. Os organizadores pensam que, se realizado, deixará milhões de usuários sem acesso à energia. O governo também está tentando dividir o movimento, oferecendo milhares de empregos de "modernização" para trabalhadores do Sindicato, desempregados desde o fechamento da Light and Power.

Mas as mulheres da ANUEE não estão mostrando nenhum sinal de desânimo ou fadiga. Como disse Alejandra: "A luta nos ensinou a lutar, além das nossas exigências em relação à energia: estamos lutando por mulheres".




Tuesday, December 05, 2017

A mais jovem guerrilheira*



Graças aos esforços de militantes como Elena Lagadinova, as mulheres nos países comunistas gozavam de mais igualdade do que em qualquer outro lugar do mundo.

. artigo de Kristen R. Ghodsee (professora de Estudos da Rússia e Leste Europeu na Universidade da Pensilvânia) publicado na revista Jacobin (semi-eca -- mais sobre meu abuso em relação à Jacobin em breve) em dezembro de 2017
. traduzido por Adelaide Ivánova na série "é doutrinação esquerdista suficiente ou tá pouco?", inventada e liderada por ela mesma
. link pro original: https://jacobinmag.com/2017/12/elena-lagadinova-bulgaria-partisan-amazon-gender-equality




Ela provavelmente é a feminista mais fascinante da qual você nunca ouviu falar. E durante os sete anos que tive a honra de conhecê-la, ela compartilhou suas lembranças da Segunda Guerra Mundial e narrou uma história quase esquecida do ativismo das mulheres do século 20. Eu soube de sua morte súbita em um email-staccato enviado da Bulgária: a Amazona nos deixou. Sua vida abrangeu o fascismo, o comunismo e o clepto-capitalismo, mas ela nunca deixou de ter esperança.

elena com angela davis
(txoman)


"A Amazona" era o seu codinome.  Aos 14 anos, Elena Lagadinova lutou contra a monarquia aliada-dos-nazi na Bulgária, sendo a mais jovem guerrilheira mulher. Décadas depois, sua paixão ajudou a definir o movimento internacional das mulheres durante a Guerra Fria. Outrora celebrada em ambos os lados da Cortina de Ferro, depois das mudanças políticas ocorridas com colapso do comunismo, em 1989, a história de Lagadinova foi esquecida.

Nascida em 1930, Lagadinova era filha de um carroceiro. No início de 1944, ela fugiu de sua terra natal, que pagava fogo, para se juntar ao pai e três irmãos em uma brigada de guerrilheiros antifascistas. "Eu carregava minha pistola roubada numa corrente ao redor do meu pescoço", ela me disse uma vez "para eu não esquecer dela, caso fôssemos atacados enquanto dormíamos".

Quando os comunistas chegaram ao poder na Bulgária em setembro de 1944, a jovem Elena liderou a procissão de partidários vindos das montanhas, em um cavalo branco. Sua imagem foi distribuída em jornais e revistas infantis de Belgrado a Moscou. Meninos e meninas do bloco oriental eram encorajados a serem "corajosos como a Amazona!".

Mais tarde, Lagadinova obteve um doutorado em agrobiologia e trabalhou como pesquisadora até 1967, quando o líder comunista da Bulgária precisou de uma figura carismática para se responsabilizar pelo Comitê de Mulheres. Já uma heroína de guerra, uma estudiosa respeitada e mãe dos três filhos, a Amazona dedicou os próximos 22 anos de sua vida para promover os direitos das mulheres.

Ela já tinha 80 anos quando comecei a entrevistá-la, em 2010. Durante as centenas de horas que passamos sentadas à mesa da sua sala de jantar, Lagadinova me presenteou com suas histórias sobre seus esforços locais e internacionais, em nome das mulheres. Fotos, cartas, recortes de jornais e relatórios oficiais abarrotavam seus armários e gavetas, documentando lutas épicas. Os registros nos arquivos estaduais corroboravam suas memórias.

Os americanos, que hoje lutam para alcançar equilíbrio entre trabalho e família, podem se surpreender ao saber que os búlgaros já faziam progressos substanciais sobre esses problemas mais de quatro décadas atrás. Entre 1969 e 1972, Lagadinova pressionou o politburo dominado pelos homens para expandir os apoios do Estado para as mães que trabalhavam fora. Suas propostas eram dispendiosas, e o Politburo hesitava. "Se vocês não vão me dar ouvidos", disse ela, "podem me enviar de volta ao meu laboratório!".

Graças à persistência de Lagadinova, em 1973 o governo búlgaro emitiu uma lei especial que dava às mulheres uma licença de maternidade generosa (de até três anos por cada criança), com a garantia de que seus empregos seriam mantidos na sua ausência e que os anos de licença-maternidade contavam com aposentadoria. O estado também se comprometeu a construir milhares de novos jardins de infância.

Durante o Ano Internacional das Mulheres das Nações Unidas, em 1975, Lagadinova liderou a delegação búlgara. Ela distribuiu as traduções da nova lei de sua nação, promovendo a ideia de que a igualdade das mulheres não poderia ser alcançada sem o apoio do Estado. Apesar da natureza autoritária do regime, neste campo a Bulgária tornou-se um modelo para outros países e, ao longo dos anos 1970 e 1980, Lagadinova forjou uma coalizão internacional de organizações de mulheres para pressionar os governos a financiarem as licenças-maternidade e as estruturas de acolhimento de crianças.


Lagadinova (no meio)
em 1984


Depois que o Muro caiu, Lagadinova se aposentou da vida pública. Nos últimos 27 anos, ela viveu em uma sociedade que de rapidamente tornou-se hostil aos seus ideais igualitários, mas ela não sucumbiu ao desespero. "Não basta lutar contra as coisas que você odeia", ela insistiu quando a vi pela última vez em maio deste ano, "você deve lutar por aquilo em que acredita".

Para Elena Lagadinova, esse "algo" era igualdade de gênero, e a ideia de que os Estados devem apoiar as mulheres como trabalhadoras e mães. Lagadinova acreditava que os mercados livres sempre colocariam as mulheres em desvantagem devido ao seu papel reprodutivo.

A batalha pela verdadeira igualdade de gênero está longe de terminar. Mas, assim como o lançamento do Sputnik em 1957 estimulou o Ocidente a avanços científicos e tecnológicos, o ativismo das mulheres do bloco oriental, como Elena Lagadinova, provavelmente acelerou o avanço dos direitos das mulheres no Ocidente.

Os países ocidentais poderiam usar desculpas e fazer ressalvas, mas o fato é: apesar de suas muitas falhas, os países comunistas tinham maior igualdade jurídica para as mulheres e um maior apoio às mulheres como trabalhadoras. Até hoje, os Estados Unidos ainda ficam atrás do resto do mundo em aspectos fundamentais e continua sendo um dos poucos poucos países que não possuem uma lei que regule licença parental remunerada.

Em 29 de outubro, Elena Lagadinova morreu enquanto dormia, talvez ainda sonhando com uma época em que as mulheres seriam iguais aos homens. Uma Amazona caiu. Mas graças a seus esforços, há exércitos mais capazes de enfrentar a luta.




* nota da Adelaide: o título original é "The youngest partisan", sendo partisan uma palavra que eu amo em inglês mas em português tanto pode ser "membro de partido" como "guerrilheira". Já que ela era as duas coisas, usei "guerrilheira" no título, pra mantê-lo curto como o original

Friday, December 01, 2017

Por que as mulheres transavam melhor no Socialismo


. texto de Kristen R. Ghodsee (professora de Estudos da Rússia e Leste Europeu na Universidade da Pensilvânia) publicado originalmente no NY Times (eca) em agosto deste ano
. traduzido por Adelaide Ivánova na série "é doutrinação esquerdista suficiente ou tá pouco?", inventada e liderada por ela mesma
. link pro originial em inglês: 

https://www.nytimes.com/2017/08/12/opinion/why-women-had-better-sex-under-socialism.html?_r=0 


family values
chapa da amiga flávio morgado


Quando os americanos pensam no comunismo do leste europeu, eles imaginam restrições de viagem, paisagens sombrias de concreto cinzento, homens e mulheres miseráveis ​ em longas filas para comprar em mercados vazios e serviços secreto perseguindo a vida privada dos cidadãos. Embora muito disso fosse verdade, nosso estereótipo coletivo da vida comunista não dá conta da história toda.

As mulheres do bloco oriental gozavam de muitos direitos e privilégios desconhecidos nas democracias liberais da época, incluindo os principais investimentos do Estado em educação e treinamento, sua incorporação total na força de trabalho, generosas licenças-maternidade e garantia de assistência gratuita à criança. Mas há uma vantagem que recebeu pouca atenção: mulheres sob o comunismo gozavam mais.

Um estudo sociológico comparativo de alemães do leste e do oeste realizado após a reunificação em 1990 descobriu que as mulheres do leste tinham duas vezes mais orgasmos que as mulheres ocidentais. Os pesquisadores ficaram maravilhados com essa disparidade na satisfação sexual relatada, especialmente porque as mulheres da Alemanha de Leste tinham dupla jornada de trabalho -- o formal e o doméstico. Em contraste, as mulheres da Alemanha Ocidental pós-guerra ficaram em casa e gozavam de todos os dispositivos produzidos pela economia capitalista. Mas elas transavam menos e o sexo era menos satisfatório pra elas do que para as mulheres que tinham que entrar na fila para comprar papel higiênico [as do leste comunista].

Como explicar essa faceta da vida por trás da cortina de ferro?

Ana Durcheva, da Bulgária, tinha 65 anos quando a conheci, em 2011. Tendo vivido seus primeiros 43 anos sob o comunismo, muitas vezes se queixava de que o novo mercado livre impediu a capacidade dos búlgaros de desenvolver relacionamentos amorosos saudáveis.

"Claro, algumas coisas foram ruins durante esse tempo, mas minha vida estava cheia de romance", disse ela. "Depois do meu divórcio, eu tinha meu trabalho e meu salário, e não precisava de um homem para me apoiar. Eu podia fazer o que quisesse".

Dona Durcheva foi uma mãe solteira há muitos anos, mas insistiu que a sua vida antes de 1989 era mais gratificante do que a vida de sua filha, que nasceu no final da década de 1970.

"Tudo o que ela faz é trabalhar e trabalhar", disse Dona Durcheva em 2013, "e quando ela chega em casa, à noite, ela está muito cansada para estar com seu marido. Mas não importa, porque ele também está cansado. Eles se sentam juntos na frente da televisão como zumbis. Quando eu tinha a idade deles, nós nos divertíamos muito mais".

No ano passado, em Jena, uma cidade universitária da antiga Alemanha Oriental, conversei com uma jovem recém-casada, de 30 anos, chamada Daniela Gruber. Sua própria mãe -- nascida e criada sob o sistema comunista -- estava pressionando-a para ter um bebê.

"Ela não entende o quanto é mais difícil agora -- era tão fácil para as mulheres antes do Muro cair", ela me disse, referindo-se ao desmantelamento do Muro de Berlim em 1989. "Elas tinham creches e jardins de infância, e elas podiam tirar licença de maternidade sem perder seus empregos. Eu trabalho com contratos temporários, não tenho tempo para engravidar".

Essa divisão geracional entre filhas e mães que atingiram a idade adulta antes e depois de 1989 apóia a idéia de que as mulheres tiveram vidas mais gratificantes durante a era comunista. Essa qualidade de vida vinha, em parte, do fato de que esses regimes consideravam a emancipação das mulheres como central para sociedades que se auto-definiam como avançadas e "cientificamente socialistas".

madonna
bebel
e engels
(doutrina mais que tá pôco!)


Embora os estados comunistas do leste europeu precisassem do trabalho das mulheres para realizar seus programas de industrialização rápida pós-Segunda Guerra Mundial, o fundamento ideológico para a igualdade das mulheres com os homens foi estabelecido por August Bebel e Friedrich Engels já no século 19 [nota da Adelaide #1: textos como "A origem da família, propriedade privada e Estado" (Engels) e "Mulheres no Socialismo" (Bebel) são cheios de passagens problemáticas, anti-feministas e heteronormativas sob uma leitura contemporânea, mas esses textos set the tone para uma mudança radical na percepção das mulheres como sendo seres políticos e civis]. Após a tomada do poder pelos bolcheviques, Vladimir Lênin e Aleksandra Kollontai permitiram uma revolução sexual nos primeiros anos da União Soviética, com Kollontai argumentando que o amor deveria ser liberado de considerações econômicas.

(LEIAM ALEXANDRA KOLLONTAI!)

A Rússia concedeu direito de voto às mulheres em 1917, três anos antes dos Estados Unidos. Também liberalizaram as leis de divórcio, garantiram direitos reprodutivos e tentaram socializar o trabalho doméstico investindo em lavanderias públicas e cantinas populares. As mulheres foram mobilizadas para a força de trabalho e se tornaram financeiramente independentes dos homens.

Na Ásia Central na década de 1920, as mulheres russas lutaram pela libertação das mulheres muçulmanas. Esta campanha verticalizada encontrou uma violenta reação de patriarcas locais que não queriam ver suas irmãs, esposas e filhas libertas dos grilhões da tradição.

Na década de 1930, Joseph Stalin retirou grande parte do progresso qu a União Soviética tinha alcançado do que diz respeito aos direitos das mulheres -- proibindo o aborto e promovendo a família nuclear. No entanto, a grave escassez de mão-de-obra masculina que se seguiu à Segunda Guerra Mundial estimulou outros governos comunistas a avançar com vários programas para a emancipação das mulheres, incluindo pesquisa científica patrocinada pelo Estado, sobre os mistérios da sexualidade feminina. A maioria das mulheres da Europa de Leste não podia viajar para o Ocidente ou ler jornais d'uma imprensa livre, mas o socialismo científico trouxe alguns benefícios.

"Já em 1952, os sexologistas checoslovacos começaram a fazer pesquisas sobre o orgasmo feminino e, em 1961, realizaram uma conferência exclusivamente dedicada ao tema", disse Katerina Liskova, professora da Universidade Masaryk na República Checa. "Eles se concentraram na importância da igualdade entre homens e mulheres como componente central do prazer feminino. Alguns até argumentaram que os homens precisam compartilhar o trabalho doméstico e a criação de filhos, caso contrário, não haveria bom sexo".

Agnieszka Koscianska, professora associada de antropologia na Universidade de Varsóvia, me disse que os sexologistas poloneses pré-1989 "não limitaram o sexo às experiências corporais e enfatizaram a importância dos contextos sociais e culturais para o prazer sexual". Foi a resposta do socialismo para o equilíbrio entre o trabalho e a vida: "Mesmo a melhor estimulação, argumentaram, não ajudará a alcançar o prazer se uma mulher estiver estressada ou sobrecarregada, preocupada com o futuro e a estabilidade financeira".

Em todos os países do Pacto de Varsóvia, a imposição da regra do partido único precipitou uma revisão abrangente das leis relativas à família. Os comunistas investiram grandes recursos na educação e treinamento das mulheres e na garantia de seu emprego. Os comitês estatais de mulheres procuraram reeducar os meninos para aceitar meninas como camaradas e tentaram convencer seus compatriotas de que o machismo era um remanescente de um passado pré-socialista.

Embora as disparidades salariais de gênero e a segregação do trabalho persistissem e, embora os comunistas nunca tenham reformado completamente o patriarcado doméstico, as mulheres comunistas gozaram de um grau de auto-suficiência que poucas mulheres ocidentais poderiam ter imaginado. As mulheres do bloco oriental não precisavam se casar, ou fazer sexo, por dinheiro. O estado socialista encontrou suas necessidades básicas e países como a Bulgária, a Polônia, a Hungria, a Tchecoslováquia e a Alemanha Oriental comprometeram recursos adicionais para apoiar mães solteiras, divorciadas e viúvas. Com as notáveis ​​exceções da Romênia, da Albânia e da União Soviética de Stalin, a maioria dos países da Europa Oriental garantiu o acesso à educação sexual e ao aborto. Isso reduziu os custos sociais da gravidez acidental e reduziu os custos de oportunidade de se tornar mãe.

Algumas feministas liberais no Ocidente reconheceram com relutância essas realizações, mas criticaram as conquistas do socialismo estatal, porque elas não emergiram de movimentos de mulheres independentes, mas representaram um tipo de emancipação verticalizada. Muitas feministas acadêmicas hoje celebram a escolha, mas também abraçam um relativismo cultural ditado pelos imperativos da interseccionalidade. Qualquer programa político de cima para baixo, que procure impor um conjunto universalista de valores, como a igualdade de direitos para as mulheres, está seriamente fora de moda.

Infelizmente, o resultado é que muitos dos avanços da libertação das mulheres, conseguidos nos países que integraram o Pacto de Varsóvia, foram perdidos ou revertidos. A filha adulta de Dona Durcheva e a jovem Daniela Gruber agora lutam para resolver os problemas da vida profissional que os governos comunistas resolveram para suas mães, no passado.

"A República me deu a minha liberdade", disse-me Dona Durcheva, referindo-se à República Popular da Bulgária. "A democracia retirou essa liberdade". [nota da Adelaide #2: acho que aqui ela devia ter dito "capitalismo", néam].

Quanto a Daniela Gruber, ela não tem ilusões sobre as brutalidades do comunismo da Alemanha Oriental; ela simplesmente deseja que hoje em dias "as coisas não fossem tão difíceis".

Porque elas defendiam a igualdade sexual -- no trabalho, no lar e no quarto -- e estavam dispostas a fazer dela uma imposição, as mulheres comunistas que ocupavam cargos no aparelho estatal poderiam ser chamadas de imperialistas culturais. Mas a libertação que elas impuseram transformaram radicalmente milhões de vidas em todo o mundo, incluindo as de muitas mulheres que ainda caminham entre nós como mães e avós de adultos nos atuais membros democráticos da União Européia. A insistência das camaradas sobre a intervenção do governo pode parecer pesada à nossa sensibilidade pós-moderna, mas às vezes as mudanças sociais necessárias - que logo se vê como a ordem natural das coisas - precisam de uma proclamação de emancipação de cima.