Friday, August 25, 2017

uma apropriação pro recifês de poema-stalker de annemarie bostroem


#8

eu nunca vou pedir o teu amor, vou exigi-lo:
que tu me ame é meu direito e teu dever e
ainda que por ele eu quase tenha morrido,

eu sei que tu me adora – só tu não sabe disso.
tu ainda acredita ser capaz de escapar
das algemas que meu desejo usa

para prender tua alma. meus braços querem
te ninar e meus olhos procuram a tua cara.
nenhum deus vai te salvar do meu amor

quando ele recair sobre ti, pegando fogo.
e agora que tu afinal sai do escuro, e
essa brasa noturna em luz se transforma,

eu quero então abrandar teu facho, laboriosa.








Ich werde nie um Deine Liebe bitten,
ich fordre sie, mein Recht und Deine Pflicht.
Obwohl ich fast den Tod um Dich gelitten,

weiß ich, Du liebst mich, und Du weißt es nicht.

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Du glaubst noch zu entrinnen aus den Ketten,
die Dir mein Sehnen um die Seele flicht.

Doch meine Arme warten, Dich zu betten,
und meine Augen suchen Dein Gesicht.
Kein Gott wird Dich vor meiner Liebe retten,

wenn sie in Flammen auf Dich niederbricht.
Du aber tritt nun endlich aus dem Schattenn
und wandle diese dunkle Glut in Licht,

dann will ich dienend Deiner Kraft ermatten.



annemarie bostroem foi uma poeta, dramaturga e tradutora alemã nascida em Leipzig, em 1922. ela morreu em 2015, com mil e duzentos anos, em berlim, onde morava desde 1944.

ela é praticamente uma desconhecida, mesmo tendo uma caralhada de livro vendido. descobri o terzinen des herzens (que é o livro que tem este poema, cujo título “traduzi” como Tercetos de amor) em maio deste ano, por acaso, passeando com ewout, num sebo na wrangelstrasse. me custou um euro. o vendedor nunca tinha ouvido falar da muié, ninguém que eu perguntei depois tampouco conhecia.

o livro tem 38 poemas COMPLETAMENTE OBCECADOS RECIBÃO MERMO, e é dedicado ao primeiro marido dela, um boy famoso, friedrich Eeisenlohr (1889-1954), que era jornalista, dramaturgo, escritor e editor. como ele era bem mais velho e bem mais famoso que ela, annemarie era "conhecida" (nem isso) como a marida de eisenlohr, coisa que frequentemente acontece com mulheres de homis famosos, não ou pouco importando o quão incríveis elas sejam.

o livro foi lançado em 1947 pela Rupert-Verlag e rejeitado ideologicamente dentro da zona de ocupação soviética na alemanha oriental, por ser considerado apolítico e erótico – sem no entanto ter sua publicação censurada. 

já em 1975 (portanto 14 anos após a construção do muro de berlim) terzinen des herzens foi completamente censurado pelo regime da RDA, só voltando a ser editado nos anos seguintes. mesmo com todo backlash, ele teve 100 mil cópias vendidas.  

para esta tradução usei a edição que encontrei no sebo, de 1951, da Insel Verlag. mais três traduções inéditas deste livro vão sair em breve na próxima edição da revista parênteses (obrigada, lubi!).

queria dedicar essa tradução ao meu pobre namorado, que mal sabe onde se meteu. 







-->

Wednesday, August 23, 2017

o guepardo


para L. em seu aniversário


o guepardo macho é parecido com o leopardo
(ou seja é um gato)
as patas têm ranhuras
para se mover melhor em alta velocidade
a cauda é longa e serve
para lhe dar estabilidade nas curvas
ao contrário dos outros felinos não ruge
ronrona
têm na cara duas linhas pretas
(parecem lágrimas)
e protegem os olhos da claridade
(ele caça à luz do dia)
cada guepardo tem padrão exclusivo de anéis
em seu rabo
costumam marcar território mijando
(matam qualquer intruso)
adotam os filhotes perdidos ou órfãos
fazendo o papel de pai e mãe
têm uma cabeça pequena e aerodinâmica
uma coluna incrivelmente flexível
(para eles correrem mais rápido)
é um animal predador de estratégia simples
não usa táticas complexas como a emboscada
caça em perseguições em alta velocidade
matando sua presa de cansaço e asfixia
(termina a caçada com uma mordida na garganta)
consegue atingir velocidades de 115 quilômetros
por hora sendo portanto
de todos os animais terrestres
além de o mais bonito
o mais rápido




Monday, July 31, 2017

são paulo fashion flip, dia 4 (e uns dizeres sobre o fruto estranho)


o texto apresentado dentro da série "fruto estranho" (que teve também josely vianna baptista, grace passô, prisca augustoni, ricardo aleixo e andré vallias) é resultado de uma pesquisa iconográfica de feminicídios famosos e assassinatos de mulheres ativistas, no brasil, e de cujos corpos se encontra fotos no google images. vale dizer que outros feminicídios super famosos (tipo o caso serrambi ou o massacre do reveillon em campinas) não entrou no texto por não haver imagens disponíveis no google (graças a deus).

vamos bem longe quando o tema é exposição do corpo da mulher, inclusive a exposição do corpo morto - ou seja, o mais vulnerável que existe. assim sendo, enquanto juntava essas imagens no meu computador (aliás um processo traumático em si, deus me livre nunca mais faço isso de novo, porque além de salvar eu tinha que ficar olhando para elas, para descrever o mais acuradamente possível), fui reler "diante da dor dos outros", de susan sontag, em que ela fala da experiência dela na guerra de sarajevo e da nossa relação com imagens de zonas de conflito.

eu sempre fui obcecada com esse livro e, considerando o brasil o quinto em número de feminicídios no mundo (são 13 mulheres assassinadas/dia, segundo a onu) achei que podia friccionar o contexto brasileiro de morte de mulheres, no contexto de guerra que sontag aborda.


no vídeo, toda vez que eu falo "pág. não sei das quantas", o que vem depois é uma citação do livro. achei que era melhor fazer assim do que ficar repetindo algo tipo "abre aspas-citação-fecha aspas". só que tem muita gente no facebook reproduzindo exatamente essas partes da performance como se essas citações fossem minhas, e não são, e tô com medo da compainha das letras me processar hahaah! a foto do caderninho vermelho usado na performance taí pra provar que eu usei aspas, e no fim do texto há uma referência bibliográfica que, aliás, copio aqui:

Susan Sontag, “Diante da dor dos outros”, tradução de Rubens Figueiredo (São Paulo: Companhia das Letras, 2003) 


esse texto não teria sido possível de ser feito e apresentado sem a ajuda/inspiração de fabiana moraes e gui mohallem. obrigada às minhas amigas raquel borba, clarissa galvão e juliane miranda. obrigada ao coletivo garupa, a italo diblasi e flavio morgado. obrigada à minha mãe que quando eu nasci disse "vai adelaide ser anarcobucetalista na vida". obrigada à moça barbara que ficou conversando comigo pra me distrair, minutos antes deu entrar na igreja, e me salvou dum infarto. obrigada a maria valéria rezende que, já no camarim-sacristia, me disse: "menina, vai ter gente que vai gostar e gente que não vai gostar, e daí?".

obrigada principalmente à grande joselia aguiar, que mulher da pá-virada da porra. que visão. que visão. que divisor de águas.

fica o desafio para o ano que vem, na minha opinião: se misturar DE VERDADE com a comunidade local e incluir na programação os professores de literatura do ensino médio da rede pública, que são os verdadeiros formadores de leitores do país. 


olha essa foto gente que coisa mais linda
(quem tirou foi gabriela e me mandou depois)
esse é seu antonio carlos, professor de literatura
da escola de aplicação do rio.
a gente conversou tanto depois da performance
tem que ter menos prof de universidade nesses eventos
e mais prof das escolas públicas como produtores de pensamento
plmdds


sem mais mimimi, maiss chapas:


maria valéria e a filha de luaty

kanguei no maiki 

luaty gato assinando autógrafos 
eu tarra do lado de decoração hahaha


a moça barbara que salvou minha vida 

depois teve conversa com paula fábrio, leo cazes
e noemi jaffe (TE AMO!) que nessa chapa
mal-batida tá lendo um trecho de "o que os cegos estão sonhando"
(que foi o livro que eu tava lendo naquela viagem-demônia pra polônia,
com ewout, no ano passado)


mais tarde, no bar, eu e fred klumb na fila do banheiro


eu e meu beatnítalo


os militar na BR no caminho do aero do rio.
af que abuso.










Saturday, July 29, 2017

são paulo fashion flip, dia 3



never

fila na frente da casa saramaDo
um monte de mulher
pra ver duas mulher
foda

ai meu coração

djamilia abrindo os trabalhos 

que chapa rob packa!


eu sendo maravilhosa ALOK
na chapa de amanda

os pessoal e os migos do coletivo garupa
melhor editora que a gente respeita

julya tavares bebendo duas caipi ao mermo tempo
e fred klumb olhando
(ou "cada um tem a namorada que merece")


deus
"AINDA QUE REIVINDIQUE NAMORADOS,
TENHO CATARATAS"
hahahahahaha

fran cricelli e alberto martins

e pra encerrar a noite,
outro deus me mostrando
no celu dela os selfies
que ela fez com dilmão!
txoman.
(a chapa é de priscilla campos amor)



Friday, July 28, 2017

são paulo fashion flip, dia 2


um urubu

meu amigo ravi e a pipoca

poesiamantrasermão de natalia borges polesso
#ummulhersingular
#oquefazumamulher

prisca augustoni se divertindo no lançamento do livro dela

andré capilé frescando


fruto estranho de josely
("você vê?")


djamilia pereira de almeida arrasando
("escrever é uma questão de vida ou morte") 

jarid arraes lançando seu livro
"heroínas negras brasileiras em 15 cordéis"
("fazer literatura é causar impacto")

sérgio miga maciel e schneider carpeggiani
(vulgo delfim boys)
eu quase morro essa hora

fruto estranho de grace passô 
"olhos são faróis ou facas
ou moluscos ou um susto
ou um diabo
ou tudo junto"

um homem protestando
contra a rede esgoto
"



e fotos que eu fiz pra lukas achar
o brasil bonito e querer vir logo
pra cá comigo










Thursday, June 22, 2017

para italo, no seu aniversário, um poema cheio de rimas pobres


não sei o quanto pesa o destino
mas prefiro acreditar que tu aparecesse
para me apresentar à coragem

para me aproximar de coisas que eu devia
há tanto ter começado finalizado
ou dito

te usar não como desculpa
e sim como gatilho
para silêncios melhores
e mais incômodos
para mais fogos, mais artifícios

te celebrar
hoje
já que és o último terrorista
com tua capacidade infinita
de encantamento

celebro hoje todos teus abismos
(que não são poucos)

teu nome hoje é dito no umbral
pois não tendo empleo fijo podemos
virar mil noites juntos
pois o que me interessa é te olhar
te ouvir e me sentar nos parques
para te leer ou leer
contigo te dizer "feliz aniversário"
mas em vez de oferecer-te
fazer de ti el regalito
tornando-me eu mesma
en contrario
um igual
teu menino
teu amigo


Wednesday, June 14, 2017

o presente do terremoto


teu pénis
meu pão tão cedo

maria teresa horta



teu corpo
que não domino 
tu tão homem tão velho 
(pra mim)

teus pêlos 
cor de caramelo 
fazendo cócega no meu nariz
antes que eu pegue no sono

te acordo porque
me acordo com medo
pensando
meu deus e se eu perder o controle

te olho 
porque tu és tão bonito
e és tão velho 

tu tua velhice
e teu tamanho
gostam de mim
e eu não sei o que fazer
quando não sou eu que
mando

daqui de onde
te olho vejo deus
a um banquinho
de distância

desapareço nos teus hectares
tuas mãos de adam smith 
por toda parte 
hoje cedo com elas na minha
nuca me dissesse
o presente do terremoto
menina (ele disse menina sendo que eu tenho mil anos!)
é perder o medo das ruínas


Tuesday, May 23, 2017

bio dxs autorxs de MPPF #4


o MAIS PORNÔ, PFVR! #4 é só de poesia traduzida. essa edição foi editada por moá, com a colaboração preciosa dxs tradutorxs and poetas william zeytounlian (co-starring o maravilhoso diálogo de zap que virou capa), regina azevedo, sergio maciel e guilherme gontijo flores.





o zine tem tiragem de 50
cada zine custa R$ 3
o frete sai por R$ 7 
(haha não faz sentido, mas é assim)
para encomendar:
bolagato.edicoes@gmail.com
(hahaha siam!)



aqui vão as bios dxs 15 autorxs desta edição, por ordem alfabética. todas as bios foram tiradas das primeiras linhas dos seus perfis no wikipedia, menos santarosa barreto, christiane quandt e chris daniels.


Audre Lorde  (EUA, 18 de fevereiro de 1934 - 17 de novembro de 1992) foi uma escritora caribenha-americana, feminista interseccional, mulherista, lésbica e ativista dos direitos civis.

Caio Valério Catulo  (Verona, 87 ou 84 a.C. - 57 ou 54 a.C.) foi um poeta romano do final do período republicano.

Carl Phillips (EUA, 23 de julho de 1959) é um poeta afro-americano professor de Inglês e Estudos Africanos e Afro-americanos da Washington University em St. Louis.

Chris Daniels (Manhattan, 1956) é um tradutor feroz da poesia lusófona global e vive em Oakland, California.

Christiane Quandt (Alemanha, 1982) é tradutora, poeta e co-editora da revista alba.lateinamerika lesen.

Comtessa de Diá (1140 -1212) foi uma trovadora provençal.

Cristina Peri Rossi (Uruguai, 12 de novembro de 1941) é novelista, poeta, tradutora e contista.

Dorothea Lasky (EUA, 1978) é uma poeta e professora.

Gustave Courbet (França, 10 de junho de 1819 - 31 de dezembro de 1877) foi um pintor francês do movimento realista.

Essex Hemphill (EUA, 6 de abril de 1957 - EUA, 4 de novembro de 1995) foi um poeta e ativista afro-americano.

Jean de La Fontaine (França,  8 de julho de 1621 - 13 de abril 13 de 1695) foi um poeta e fabulista francês.

Maya Angelou (EUA, 4 de april de 1928 - 28 de maio de 2014) foi uma poeta, memorialista e ativista dos direitos civis afro-americana.

Nina Simone (EUA, 21 de fevereiro de 1933 - 21 de abril de 2003) foi uma cantora, compositora, pianista, arranjadora musical e ativista dos direitos civis afro-americana.

Rosinha (Portugal, 5 de Janeiro de 1971) é uma cantora pimba.

Santarosa Barreto (Brasil, 6 de agosto de 1986) é artista visual e feminista.

Staceyann Chin (Jamaica, 25 de dezembro de 1972) é uma poeta, performer e ativista LGBT jamaicana.




Saturday, May 13, 2017

o cavalo #2


você vai embora
e leva tudo o que é
meu e seu a galope
consigo
o que sobra é
writers' block
e as camisinhas pra jogar
fora que deixo no chão
como se fossem filhos
que não quero expulsar
de casa pra lembrar do pai
e se eu não tivesse mil anos
e fosse fértil seria linda
a linhagem de puro-sangue
seus filhos os potros
que eu-égua teria parido

você vai embora e
não fica nada além
do cheiro de estábulo
limpo um misto empoeirado
de saudade e alívio



ô, marinheiro

(de fiona apple em "extraordinary machine", 2005)

eu tô na dúvida sobre tu, de novo
não estou certa que fosse embora
é complicado, porque fui eu que pus tudo a perder
mas também me salvei porque nunca acreditei em você, querido

tudo o que é bom eu acho que é bom demais pra ser verdade
e todo o resto eu acho um saco
tudo que eu tenho que me anima
ou é muito imponente ou é muito doloroso

ô, marinheiro, por que tu faz isso?
pra que tu faz isso?
dizendo que não é nada demais
e depois deixando o barco afundar

e depois de muito esperar de joelhos
tudo o que sobra se cansa, menos eu
e na vigília surge o toque e o chamado
de uma linhagem nova
que me faça mais sábia e me faça avançar
e que me possua

e que coisa é pensar em como as coisas poderiam ter sido
ai que maldição abençoada, ver
que isso controla minha cama
e fez de mim uma amante alegre

ô, marinheiro, por que tu faz isso
pra que tu faz isso



Tuesday, May 02, 2017

pro meu amante, quando atinge a maioridade



meu bem, o meu lugar é onde você quer que ele seja
belchior



saiba que você chegou no dia
que belchior morreu e que eu
dei pausa no 'coração selvagem'
pra te ouvir falar - e deus
você fala mais do que o homem
da cobra - e que isso se chama
amor, de certo modo

você saía de dentro da sua mãe
enquanto eu cheirava loló
e ouvia chico science nas ruas
de uma cidade latinoamericana
da qual você nunca ouviria falar
até me conhecer, 20 anos depois

que bom que você está aqui
e posso testemunhar esse ano
a mais nos seus ossos
que parecem continuar crescendo,
como sua crina, o mato que
eu mais amo, e que bom que sou
eu quem vai cortá-lo, porque
você me deu a honra

é seu aniversário de 21 anos
eu te olho abismada
não fico exatamente feliz
e você deve sentir
pena de mim também
talvez

mas não é isso que une todos
os amantes, a tristeza?



valei-me





Saturday, April 15, 2017

a noite dos condenados/o fim do amor, de ingeborg

esse poema foi encontrado escrito num guardanapo. o primeiro verso, o que tá riscado, diz "nichts besonders", que em alemão é tipo "não é nada demais", "sem graça".

as duas palavras do penúltimo verso ("o mundo {--}") são ininteligíveis no manuscrito e aparecem, na transcrição que aparece no livro, assinaladas da mesma forma que aqui.



A NOITE DOS CONDENADOS
O FIM DO AMOR

Uma lua, um céu
e o mar escuro.
Agora, escuro está tudo.
Só porque é de noite
e nada humano
entrelaça a delicadeza.
Ainda me acusas de quê?
e essa amargura,
Faz isso não.
Eu não sabia fazer nada
a não ser te amar, eu não
pensei,
que por causa do suor da pele
o mundo [--] [--]
e que caem uns vinténs





de Bachmann, Ingeborg. “Ich weiß keine bessere Welt.” Piper.


Sunday, March 26, 2017

três poemas de “Ich weiß keine bessere Welt”, de Ingeborg Bachmann



Meus poemas fugiram de mim.
Eu procuro por eles em todos os cantos da casa.
Não sei nada sobre a dor, nem sobre como se deve
escrever sobre a dor, eu não sei de nada.
Sei que não se pode falar das coisas desse jeito
tem que ter tempero, jogar pimenta na metáfora.
ocorreria a alguém. Mas com um punhal nas costas.
Parlo e tacio, parlo, me escondo num dialeto
no qual até em espanhol aparece, los toros y
las planetas, num disco velho e roubado
que talvez ainda toque. Com um pouco de francês
também rola, faça mon amour depuis si longtemps.
Adieu, palavras bonitas, vocês e suas promessas.
Por que vocês me abandonaram? Não tava bom aqui?
Vou guardar vocês dentro de um coração de pedra.
E lá, aguentem, e lá escrevam meus poemas por mim

Meine Gedichte sind mir abhanden gekommen.
Ich suche sie in allen Zimmerwinkeln.
Weiß vor Schmerz nicht, wie man einen Schmerz
aufschreibt, weiß überhaupt nichts mehr.
Weiß, daß man so nicht daherreden kann,
es muß würziger sein, eine gepfefferte Metapher.
müßte einem einfallen. Aber mit dem Messer im Rücken.
Parlo e tacio, parlo, flüchte mich in ein Idiom,
in dem sogar Spanisches vorkommt, los toros y
las planetas, auf einer alten gestohlenen Platte
vielleicht noch zu hören. Mit etwas Französischem
geht es auch, tu es mon amour depuis si longtemps.
Adieu, ihr schönen Worte, mit euren Verheißungen.
Warum habt ihr mich verlassen. War euch nicht wohl?
Ich habe euch hinterlegt bei einem Herzen, aus Stein.
Tut dort für mich, Haltet dort aus, tut dort für mich ein Werk


NÃO DESCARTAR NENHUM TESTEMUNHO

Não descartar nenhum testemunho, calar, viver
a vida pré-determinada, viver,
o sol durante o dia não muda nada
não ser fardo para o sol, não ser fardo para
ninguém.
É um fardo não esperar nada, não temer nada.

KEIN ZEUGNIS ABLEGEN

Kein Zeugnis ablegen, schweigen, leben,
das vorgeschriebene Leben, leben,
die Sonne, die nichts an den Tag bringt,
die Sonne auch nicht bemühen, niemand
bemühen.
Es ist eine Mühe, zu hoffen nicht, zu fürchten nichts.

PUBLICIDADE,

tento atrair todo mundo
e não consigo ninguém
tento atrair o cobrador do trem
que deixa a porta bater na
minha cara, tento atrair o carteiro
que faz muito
barulho, tento atrair
todo mundo, eu preciso
de um grande homem
para conseguir amá-los,
é perigoso amar
os homens, é um crime
insistir


WERBUNG,

um jeden werb ich
und keinen gewinn ich,
um den Straßenbahnschaffner
der vor mir die Tür einschnappen
läßt, um den Postboten,
der zu laut
läutet, um jeden
werb ich, ich brauch
ein Heer von Menschen
um sie lieben zu können,
es ist gefährlich, die Menschen
zu lieben, ein Verbrechen
sich aufzudrängen

Friday, March 24, 2017

eu vou melhorar, de bon jovi


agora deve ser verdade
tua mala feita não nega
enquanto o meu coração sangra
tu diz "o amor é uma merda"
tu diz "chorei o são francisco
e agora quero a transposição"
me deixasse afogar em lágrimas
e o pior sem salvação
eu só queria um colete salva-vidas, meu

eu vou melhorar, essas palavra tu pode anotar
ao respirar, eu quero ser pra tu o ar
eu vou melhorar
eu vivo e morro por tu
eu roubo o sol lá do céu por tu
palavras não fazem jus
eu vou melhorar

eu sei que lembras de quando era bom
mas até eu me esquecerei
não posso prometer nada
nem melhorar o que piorei
tu sabe as merda que eu fiz (e tu sabe que eu fiz merda)
mas só queria ser teu namorado
serei a água que cura a tua ressaca
e antes disso eu serei a cachaça (oooooo-ow!)

(repete refrão)

na alegria eu fui ausente
e te ignorei quando tarras mal
esqueci o teu aniver baby
mas ao menos sou um boy coerente (uuuuuuuh)

(repete refrão)
(grita na karaokê)

Tuesday, March 07, 2017

um pouco sobre a feitura do MPPF! #3

o MAIS PORNÔ, POR FAVOR! #3 é dedicado à poesia lésbica. essa decisão foi tomada por um motivo simples: ao olhar o conjunto de autorxs publicadxs nos dois primeiros números do zine, notamos que, ainda que não fossem heterocêntricos, a maioria dos poemas falava de pau: dos 24 poetas publicados nas duas primeiras edições (12 mulheres e 12 homens), 21 falavam de rola.

assim, para essa edição, queria poemas que falassem de buceta, mas que passassem longe da heteronormativade (tantas vezes tóxica e auto-celebratória) da poesia de buteco. convidei então carol morais, carol almeida e priscilla campos que, entre outras mil coisas foda que elas fazem, organizam o #leiamulheres recife.

capa com ilustração foda de giovana rosetti
e releitura de carol morais pro poema de stein.
editorial de carol almeida.
o ziné é numerado and costurado a mão
por esta tabacuda que vos escreve


no decorrer do trabalho de pesquisa, pela nossa dificuldade de encontrar e consequente falta de material de autoras não-sudestinas na nossa seleção, decidimos fazer uma chamada aberta no facebook, convidando autoras do não-sudeste a enviarem seus textos. vale aliás notar que, durante nossa pesquisa, os (poucos) artigos/textos/posts dedicados à poesia lésbica brasileira que encontramos se focavam quase que exclusivamente em poetas brancas, urbanas e do sudeste brasileiro.

em cinco dias, recebemos textos de autoras de 13 estados. durante a seleção final, nossa preocupação – além, óbvio, da qualidade dos poemas – era a representatividade, tentando balancear a quantidade de autoras não-brancas e de fora das capitais.

assim, chegamos a 10 poetas brancas, 7 negras e uma asiática (ainda não é o ideal, mas prometemos não descansar e dobrar a meta*).

entre as brasileiras, 7 são de capitais e 6 de não-capitais. no que tange distribuição por estado, tentamos não reproduzir a lógica recifilista-pernambucocentrista do manifesto regionalista de '26 hahaha e semi-conseguimos: das 14 poetas brasileiras, 2 poetas são pernambucanas, mas mais as 4 editoras e uma co-tradutora (amanda guimarães), ficamos com 6 pernambucanas no zine. foi mal. além disso temos: 1 autora baiana, duas cearenses, 2 de são paulo, uma do rio, uma de minas, uma do pará, 2 do mato grosso, uma do maranhão e do espiríto santo temos uma poeta e a ilustradora da capa, giovanna rosetti.

para dar conta de tanta maravilhosidade que encontramos brasil and mundo afora, aumentamos o zine em 4 páginas, e agora em vez de 16 o MPPF! passa a ter 20 páginas. clica aqui pra ler a bio de todas as poetas dessa edição.

quanto às traduções: a seleção foi feita por carol morais, com algum pitaco meu (soror juana e maiara  + maraisa). como a cena sapatânica norte-americana é muito ativa e bem auto-organizada, encontramos uma bibliografia poderosa sobre poesia lésbica nos EUA e fomos nos apaixonando pelo material encontrado. no fim, quando notamos que praticamente toda a parte de tradução estava dedicada à poetas dos EUA, priorizamos então as autoras não-caucasianas, deixando por isso grandes sapatães que amamos (como adrienne rich, eileen myles, elizabeth bishop, gertrude stein, emily dickinson etc.), de fora. tentamos assim dar espaço a poetas lésbicas não-brancas que não conhecíamos: pat parker, cheryl clarke e merle woo. ainda consideramos os trabalhos de wu tsao (japão), staceyann chin (jamaica) e cristina peri rossi (uruguai), além das brasileiras ângela ro-ro, angélica freitas e ana cristina césar.

para encomendar o zine que custa R$3 + FRETE 
(a calcular). como o envio da alemanha é caríssimo,
a ideia é que um grupinho de eventuais interessados
que estejam na mesma cidade dividam o frete.
se interessar, manda email pra vodcabarata@gmail.com



*queremos nos manter bafônicas e bufônicas, mas também prometemos nos manter atentxs a essas questões de representatividade. é difícil demais não cair na gostosa tentação de só publicar nossxs amigxs (ou seja, nossxs iguais; ou seja, brancosurbanoscisdeclassemédia), mas vamos ficar atentxs pra isso. prometemos também ampliar nossa pesquisa para uma abordagem não-binária de gênero - uma edição só com poesia de autores trans* já está em andamento e sai em maio, depois da edição de abril especial traduções, que será editada por nina rizzi, guilherme g. flores e sergio maciel (aka escamandro).

na verdade, a gente espera que chegue um dia em que um zine como esse não precise ser político, possa ser apenas divertido. mas por enquanto é impossível. então vamos à luta - sem perder a vontade de transar jamais (e apesar de tudo).

#foratemer,
adelaide, CEO





Monday, March 06, 2017

bios das 18 autoras publicadas no #3 do MPPF!

por ordem de aparecimento no zine (as bios das poetas brasileiras foram enviadas pelas próprias, as bio das poeta gringa (e de maria firmina) a gente pegou do wiki):


Audre Lorde - Audrey Geraldine Lorde (EUA, 18 de fevereiro de 1934 - 17 de novembro de 1992) - foi uma escritora caribenha-americana, feminista interseccional, mulherista, lésbica e ativista dos direitos civis.

Nayane Nayse (Afogados da Ingazeira, sertão de PE, 27 de novembro de 1995) é poeta.

Katia Borges (Salvador, BA, 1968) é jornalista e escritora. Publicou 'De volta à caixa de abelhas" (As letras da Bahia, 2002), "Uma balada para Janis" (P55, 2009), "Ticket Zen" (Escrituras, 2010), 'Escorpião Amarelo" (P55, 2012),  'São Selvagem" (P55, 2014) e "O exercício da distração" (Penalux, 2016). Tem poemas nas coletâneas "Roteiro da Poesia Brasileira, anos 2000" (Global, 2009), "Traversée d'Océans – Voix poétiques de Bretagne et de Bahia" (Éditions Lanore, 2012) e na "Mini-Anthology of Brazilian Poetry" (Placitas: Malpais Rewiew, 2013).

Cheryl L. Clarke (EUA, Washington DC, 16 de maio de 1947) é uma poeta lésbica, ensaísta, professora, ativista no feminismo negro: vive em entre New Jersey e New York. Junto com sua companheira, Barbara Balliet, é dona da Bleinheim Hill Books, um sebo especializado em livros raros.

Jarid Arraes (Juazeiro do Norte, sertão do CE, em 12 de Fevereiro de 1991) é escritora, cordelista e autora do livro “As Lendas de Dandara“. Atualmente vive em São Paulo (SP), onde media o Clube da Escrita Para Mulheres e o Clube Leitura Independente. Até o momento, tem mais de 60 títulos publicados em Literatura de Cordel, incluindo a coleção Heroínas Negras na História do Brasil. www.jaridarraes.com/sobre

Sóror Juana Inés de la Cruz (México; San Miguel Nepantla, 12 de novembro de 1651 — Cidade do México, 17 de abril de 1695) foi uma religiosa católica, poetisa e dramaturga nova-espanhola mexicano-espanhola. Foi a última dos grandes escritores do Século de Ouro.

Ravena Monte (Iguatu, CE, 29 de abril 1989) é produtora cultural, baixista na banda Vai Acordar o Pivete, guia de turismo e poetisa. Atualmente mora em Fortaleza, tem dois livretos publicados pelo projeto Performance Poética, no SESC Crato: "Troco poesia por cafuné" e "Pelo direito de ir e rir". Formada em Letras pela URCA.

Cecília Floresta (São Paulo, SP, 1988) é sapatão *NOTA DA EDITORA: PQP QUE BIO!!!!

Simone Brantes (Nova Friburgo, RJ, 1963) vive no Rio de Janeiro. Publicou o livro Pastilhas brancas (7Letras, 1999). Teve poemas incluídos em antologias como Roteiro da poesia brasileira anos 90 (Global, 2011) e A poesia andando: treze poetas no Brasil (Cotovia, 2008). Seus poemas e traduções de poesia foram publicados em jornais e revistas como O Globo (Página Risco), Revista Piauí, Inimigo Rumor, Poesia Sempre, Polichinello, Action Poétique e Lyrik Vännen.

Gabriela Pozzoli (são paulo,  SP, 1991) fruto de pai pescador e mãe cigana,  em outro, painho e mainha são guerreiros, em todos planos, para todos os efeitos, metade sereia e marinheiro. formou-se (no útero, mas além) em ciências sociais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

Pat Parker (EUA, 1944 – 1989 Houston, Texas) foi uma poeta lésbica feminista afro-americana.

Maria Firmina dos Reis (São Luís, MA, 11 de outubro de 1825 — 11 de novembro 1917) foi uma escritora negra, considerada a primeira romancista brasileira.

Jéssica Rosa (Itaíba, PE,  03/04/1989). Mora em Recife. Estudante da UFRPE. Ariana com Vênus em Áries e uma famigerada lua em Peixes. Poeta em construção.

Gabriela Mistral (Chile, Vicuña, 7 de abril de 1889 — Nova Iorque, 10 de janeiro de 1957), foi uma poetisa, educadora, diplomata e feminista chilena, agraciada com o Nobel de Literatura de 1945.

Raphaella Marques/Raphissima (Belém, PA, 9/11/1987). Jornalista, poeta, mestra em Artes/UFPA, pesquisa sobre Corpo, Estética e Cidade, fazendo atravessamentos entre os campos da Arte, Filosofia e Comunicação.

Lorraine Paixão (Serra, ES, 16 de junho de 1993), é capixaba, preta e lésbica. Estudante de jornalismo e metida a poetisa, mantém o blog Idiossincrasias no Sofá que é atualizado com poesias e contos escritos ao longo de suas vivências e experiências. Além de literatura, produz também crônicas e reportagens no medium.com/@lorrainepaixao.

Ana Luiza Gonçalves (Belo Horizonte, MG, 1986). Mora em BH, é formada em Jornalismo e além de atuar na área, faz intervenções poéticas, procurando trabalhar o poema como linguagem de resistência e enfrentamento da mulher.

Maiara & Maraisa ė uma dupla sertaneja formada pelas irmãs gêmeas Maiara Carla Henrique Pereira e Carla Maraísa Henrique Pereira (São José dos Quatro Marcos, MT, 31 de dezembro de 1987).

Merle Woo (EUA, São Francisco, 24 de outubro de 1941) é uma acadêmica, poeta, escritora e ativista asian-american. Woo é professora de Estudos LGBTQ e Mulheres Asian-American na Universidade de Berkeley, California.



ps: gente, qual a tradução correta e politicamente sensível do termo "asian-american"? alguém sabe? :)




Wednesday, March 01, 2017

"como o feminismo salva a pornografia", de anna christin koch



como parte dos "preparativos" (ahaha que pretensão) do lançamento do #3 do MAIS PORNÔ, POR FAVOR! (que está sendo editado por carol morais, carol almeida, priscilla campos e por mim e que sai terça que vem, dia 7 de março), traduzi esse artigo de anna christin koch, publicado em uma das plataformas do zeit online, dia 26 de fevereiro. para ler o texto em alemôo, clica aqui.




mini-boneco do zine!


Como o feminismo salva a pornografia
por Anna Christin Koch, para o Zeit Online

Todo mundo sabe o que é pornografia, mas quase ninguém sabe quão versátil é a cena alternativa pornô. 

Pornografia é algo duvidoso, que diminui as mulheres e é superficial, certo? Errado! Pornografia pode esclarecer conceitos de sexualidade, política e capacitar pessoas. Em suma: pode melhorar o mundo. Uma especialista no campo é Erika Lust. Ela produz desde 2004 pornografia ética e tem vários projetos cujo objetivo é chegar numa abordagem mais aberta da sexualidade - por exemplo, o Conversa Pornô. E, enquanto feminista, ela tem posições claras sobre o que a pornografia mainstream oferece.

Pornografia é ética

"No momento, a pornografia é dominada pelo male gaze e sempre traz a mesma perspectiva do sexo: chauvinistas brancos de meia-idade, obcecados com peitos e bundas ", explica Lust. Isto não é por acaso. Homens produzem, desde os anos 30, um tipo de pornografia que almeja agradar especialmente a eles mesmos. Isso começou com as pin-up, seguiu com a revista Playboy como sendo um guia de estilo de vida para homens e continua até hoje, nos filmes pornográficos. Embora as técnicas de produção e métodos tenham mudado, ficaram os clichês ligados a gênero. Quase exclusivamente corpos femininos são mostrados, como algo que um homem pode conquistar e dominar, feitos para responder aos seus desejos heterossexuais.

Realizadoras feministas como Erika Lust tentam se separar deste tipo de representação. Pornografia ética trabalha com cenários nos quais há interações sexuais versáteis e responsáveis - independentemente dos estereótipos de gênero e de normas sexuais. O sexo deve ser tão natural quanto possível, os parceiros devem estar em pé de igualdade nas ações e no apetite sexual. Esse tipo de pornô é muitas vezes chamado pelos homens da indústria de "pornografia de mulher", o que faz Lust dar risada: "O engraçado é que 60% da minha clientela são homens. Fantasia e sexualidade não são definidas por gênero".

Aviso: pode conter sexismo

Mas por que feministas se aproximam de uma indústria na qual há tanto sexismo?

O sexismo é um problema em todas as áreas da nossa sociedade. As mulheres ainda ganham, em média, 21% menos do que os colegas homens. Em casa, fazem o dobro do trabalho doméstico. Elas também são desproporcionalmente vítimas de insultos online e de violência em espaços públicos.

Se o sexismo é tão arraigado em estruturas sociais, ele encontra sua entrada em nossas noções de sexo e pornografia, com o estereótipo do homem que sempre pode e quere tudo, e da mulher que permite que se faça tudo com elas. O mundo da pornografia comercial reproduzia exatamente esses ultrapassados estereótipos de gênero. Quem ainda se atreve a denunciar tais representações é considerado careta, empata-foda.

Não é de se admirar, então, que muitas pessoas acreditem que é impossível encenar sexo sem sexismo. Com base nesta ideia teve origem a Campanha Pornô, de Alice Schwarzer, com a qual ela tenta, desde 1978, proibir totalmente a pornografia. Ela afirma até hoje que há uma relação direta entre o consumo de pornografia e estupro.

Do outro lado do debate estão cientistas – em sua maioria homens – como sexólogo de Hamburgo Kurt Starke, que nega totalmente o efeito da pornografia sobre a sexualidade dos consumidores de pornô. Ainda não foi esclarecido adequadamente nem “se” nem “como” a pornografia influencia nossos padrões de comportamento e de pensamento em relação ao sexo. No entanto, ainda há uma presunção de que o sexismo está constantemente reproduzido no pornô mainstream, e esse é o foco da maioria dos debates sobre pornografia.

Pense nas crianças

O debate esquenta apenas quando se trata do efeito da pornografia sobre crianças e adolescentes. Quem tem um telefone celular e uma rede Wi-Fi está a apenas alguns cliques de distância do pornô comercial. Estudos mostram que crianças assistem ao seu primeiro pornô com cerca de 12 anos. Ainda não foi comprovado se o consumo precoce tem um impacto negativo sobre o desenvolvimento sexual dessas crianças. Produtores como Erika Lust estão, no entanto, convencidos que sim: "Quase 90% do conteúdo da pornografia comercial mostra agressão verbal ou física contra mulheres, mulheres com corpos impossíveis de se ter vida real, fazendo sexo performático, com representações tóxicas do sexo, erotismo misturado a agressão... Isso faz com que exista uma geração que praticamente tudo o que ela aprendeu sobre sexo, aprendeu a partir desse tipo de pornografia”.

Se as imagens realmente têm um impacto sobre essas crianças, influenciando suas preferências sexuais e o conceito que elas têm de gênero, estamos então criando uma geração de jovens adultos que dificilmente terão ferramentas para viver a sua sexualidade de forma responsável. Isto cria ansiedade, impotência e frustração não apenas no nível pessoal, mas é também uma acusação contra nós, se não conseguirmos ou não quisermos oferecer-lhes outra imagem da sexualidade.

Pornografia precisa de feministas 

Para Erika Lust e outras feministas é crucial, portanto, oferecer pornografia alternativa, na qual tudo possa ser mostrado, desde que consensualmente e entre adultos. Além disso, há detalhes aos quais o pornô feminista mantém atento, que são detalhes que o pornô mainstream ignora. Por exemplo: os protagonistas devem se olhar, se tocar, acariciar, beijar. Devem falar sobre o que eles querem fazer com o outro e verbalizar o que gostam de fazer. Além disso, tais produções têm um roteiro mais cuidadoso, no qual o sexo é autêntico porque a história é autêntica. Os métodos de produção cumprem um código de ética. Atores e atrizes praticam sexo seguro, não são obrigados a fazer nada que não queiram e a equipe de produção é composta por mulheres e homens.

Na pornografia ética não só a sexualidade diversificada e responsável é mostrada; pelas atuações, estereótipos são quebrados e as pessoas mostradas, independentemente do gênero, como parceiros iguais. Disso se beneficiam não apenas mulheres, esclarece Erika Lust: "Eu acho que um monte de homem também não se sente representado por essa ideia de ter que ser uma máquinas de sexo, sempre prontos pra foder”.

Com esta atitude, as produtoras feministas conseguem espalhar um novo posicionamento anti-sexista, bem diferente do posicionamento de feministas como Alice Schwarzer que, ao dizer que todo homem é um criminosos sexual em potencial, está sendo sexista também.  Embora a pornografia comercial seja dirigida principalmente para um público heterossexual, branco e do sexo masculino, ele não necessariamente mostra o que esse público quer ver. Em vez de abrir um abismo entre os gêneros, deve ser olhar para outra e fundamental questão: como queremos conviver, e quais história sobre sexo queremos contar?

Pornô é política

Mas o sexismo é apenas um dos problema no debate sobre a pornografia comercial. Racismo e homofobia também podem ser encontrados nos filmes e na indústria pornô como um todo. Erika Lust pontua que há "uma classificação e estigmatização, por origem e/ou cor [dos protagonistas]". Há etiquetas que classificam esse tipo de pornô para classificá-los como “exótico”.

Por outro lado, também se estigmatiza diferentes sexualidades. Os homens homossexuais têm plataformas especiais dentro dos websites. Já o sexo de lésbicas são absorvidos diretamente pela perspectiva heterossexual, e encenado para espectadores do sexo masculino – como eles “sonham” que sexo lésbico seja. Sexo com pessoas transexuais nunca aparece como uma experiência igualitária e agradável, mas como aventura estranha e que só acontecerá uma vez.

Com tais representações, a indústria pornô não só fere os sentimentos de muitas pessoas, como também reproduz uma imagem do sexo, de sexualidade e de gênero que não se aplicam a uma sociedade que se pretenda plural.

Hora de revolucionar

Por sorte há algumas alternativas no mercado pornô. A maioria das produtoras alternativas, como Jennifer Lyon Bell ou Petra Joy, oferecem seus produtos em suas próprias lojas online. Há também networks abertos que oferecem conteúdo pornográfico. Plataformas de selfies como I Shot Myself publicam fotos produzidas pelas próprias autoras das imagens (embora, infelizmente, mostrem apenas mulheres).

Para obter uma visão geral dos diferentes produtores, atores e diretores do pornô alternativo, vale verificar os vencedores das edições passadas do Porno-Awards. Particularmente revelador é o Porn-Yes Award, prêmio bienal de Laura Meritt, e o Festival de Filmes Pornô de Berlim. Tem também o eroticfilms.com, portal de streaming para filmes de pornô alternativo, fundado por Erika Lust, no qual os próprios produtores oferecem seus filmes para empréstimo ou venda.

Tuesday, February 28, 2017

a franga e a rola (dois começo de duas tradução-twerk d'o corvo de poe)







a franga
(esboço like a prayer by sergio)

abro do whats a janela pra então flertar com ela
quando pousa na varanda, acabada, uma franga;
e ousada ou falsiane fez a kátia ou a egípcia;
com orgulho no carão, veio adentrando minha mansão,
num alvo busto da madonna, que há na minha mansão,
rebolando e pondo o cu.

(...)


a rola
(esboço roleiro by adelaide)

cá estava aqui flertando, vinte nudes te enviando
quando no meu celu pousa foto estranha e duvidosa
passarinho ou periquito pousando no aplicativo
e se o bicho é tão bonito não vou me fazer de boba
dou um printe sem demora e mando pras miga toda:
vejam que lapa de rola!

(...)






ps: tá tudo errado, mais pra reggaeton do que pra "tetrâmetro iâmbico cataléptico" (SEJA LÁ QUE CARAI ISSO FOR), mas a melhor parte d'eu não saber fazer essas coisa direito é prof. sergio mandando áudio tentando me explicar como é afffff

Sunday, February 26, 2017

Obsessão

(uma releitura safada de "ternura", de vinicius de moraes)


Foi mal a obsessão
mas tu já notasse que comigo é assim mesmo
depois dos anos que vivi à sombra dos teus talentos
olhando o mundo no visor da tua câmera
depois das noites que dormi sozinha
pelas ausências que teu trabalho me forçava
trago o cansaço das que esperaram muito e longamente

e posso te dizer, agora que te deixo,
que essas lágrimas se cansaram das promessas
e dos teus misteriosos silêncios de alemão
não é desasossego, antes uma pulsão, um transbordamento de
                                     [hormônios
que só me pedem que volte à rua, inquieta
e deixe que minhas mãos encontrem sem dificuldade
                                     [antes da ressaca a vodca



Wednesday, February 15, 2017

vem aí o MPPF #3 de poesia sapatânica



a próxima edição do MPPF 
especial só com poetas lésbicas
tá sendo feita por 
carol almeida
maria carolina morais
priscilla campos
e moá
sai depois do carnaval
(lógico)

Sunday, February 12, 2017

as dinâmicas do divórcio e os mecanismo de defesa em 4 traduções-recibo de 4 hinos pop dos anos 90 pro recifês



1) na hora da separação (negação)

não fale
(eric stefani, gwen stefani)

Eu e tu
a gente era um casal
todo dia juntos, sempre
mas me sinto
perdendo meu melhor amigo
não consigo acreditar
que é o fim

Parece que tu tás desistindo
e se for isso
eu não quero saber

Não fale
Eu sei exatamente o que tu queres dizer
Então pare de explicar
Não me diga, porque dói
Não fale
Eu sei o que tu tás pensando
Eu não preciso saber os motivos
Não me diga, porque dói

Nossas lembranças
podem ser convidativas
mas algumas são totalmente
assustadoras

Enquanto morremos, eu e tu,
com as mãos na cabeça
eu sento e choro

Se estamos nos separando
eu tenho que parar de fingir que somos o fomos

Eu e tu
dá pra ver que está morrendo.
Está?

(sssssh, não fale nada, querido).






2) depois, quando a raiva bate e você discute quem vai ficar com as coisas e você finge que quer que se foda (formação reativa)

roxo
(courtney love e eric erlandson)

E o céu tinha a cor da pedra roxa
E todas as estrelas pareciam peixinhos
Você devia saber a hora de ir embora
E a hora de dizer não

Isso podia durar um dia
Mas pra mim é pra sempre
Se bem que quando conseguem o que querem já não querem mais
Então vá em frente, leve tudo, eu quero que você leve tudo

E esse céu todo roxo
Eu quero dar o roxo às ronxas
E eu sou aquela sem alma
Em cima e embaixo

Eu disse a você desde o início como isso ia acabar
Quando eu consigo o que quero, já não quero mais

Então vá em frente, leve tudo, eu quero que você leve tudo
Se eu não me importo, não é você que tem que se importar.




3) na sexta à noite, os eletrodomésticos ficaram, ficou tudo menos o edredom e o homem (isolamento)

sem você eu não sou nada
(steve hewitt, brian molko e stefan olsdal)


Paixão estranha que enfeita minhas marés noturnas
(que eu aguento, se for do teu lado)
Tanta imaginação parece ajudar o deslize do desejo
(que eu aguento, se for do teu lado)
Crush imediato que suga e que gera um monte de mentira
(que eu aguento, se for do teu lado)
Super-saturação que queima e encolhe minha pele
(que eu aguento, se for do teu lado)

(os ponteiros batem)

Sou impura, sem-vergonha
E toda vez que tu dá vazão aos teus brios
parece que perco o poder de fala
Tu saindo do meu alcance
me faz crescer como as sempre-vivas.

Você não conhece a solidão que há em mim.

Eu
pego os planos e jogo fora.
Eu
morro.

Sem você, eu não sou nada.

 
(com bowie, que eu não sou boba)


4) madrugada de sábado pro domingo, falando com a melhor amiga no skype (sublimação)

um dia eu serei tipo um sábado à noite
(jon bon jovi)

Oi miga eu tô viva, vivendo um dia de cada vez
tô me sentindo como uma segunda-feira, um dia eu serei tipo um sábado à noite

Oi, meu nome é ivi, onde foi que eu errei
minha vida é uma zona, tá tudo uma bosta
eu perco todos os empregos, não tenho dinheiro
tô dormindo num colchão velho e sem mola

Oi meu nome é adelaide, meu amor foi usado e abusado
tenho "apenas" trinta e quatro anos mas me sinto como se tivesse cem
meu pai adotivo ex-marido se foi, levando com ele minha paciência
a vida em berlim não é muito melhor, mas pelo menos eu escrevo

Quem sabe na terça-feira as coisas dão certo
pior que ontem não fica
quintas e sextas também não têm sido melhores
"mas às vezes eu saio"

Oi miga eu tô viva, vivendo um dia de cada vez
sim, eu tô triste, mas sei que vai passar
ai miga eu tenho que viver minha vida
como se eu não me restasse nada a não ser a aposta
tô me sentindo como uma segunda-feira, um dia eu serei tipo um sábado à noite

Agora eu não posso dizer o meu nome, e dizer onde eu tô
Eu queria era ir embora mas não sei se posso
Eu queria tá em outro tempo, em outro canto
Ter outra alma, ter outro rosto

É sábado e eu vou sair
que eu tô sentindo que pode ser bom
força na peruca que eu vou ficar bem
pode até não ser amanhã, mas fodase, tudo bem
Eu não vou chafurdar na merda, vou sair dessa.


Wednesday, February 01, 2017

a arte do recibo, transcrição cancerígena de elizabeth bishop para o recibês



The art of recibo isn’t hard to master;
so many recibos are sent to the wrong
referente that the indiferença is no disaster.

Passe one recibo every day. Accept a mensagem
visualizada e não respondida, the recibo badly spent.
The art of recibo isn’t hard to master.

Then practice passar recibo farther, faster:
cite motéis, o nome da outra, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother’s vergonha na cara. And look! my last, or
next-to-last, of three loved maridos went.
The art of recibo isn’t hard to master.

Perdi duas cidades que amava. And, pior,
some paisagens tão minhas, dois rios, um continente.
I miss them, mas não é nenhuma tragédia.

—Even losing you (taurino e novinho as
I love) I shan’t have lied. It’s evident
the art of recibo is not too hard to master
ainda que pareça (PASSE O RECIBO!) uma tragédia.



Tuesday, January 31, 2017

"deve ser amor" e "onda", duas traduções-trambique de rihanna pro recifês


deve ser amor

quando tu me tem, me libera
o que tu quer de mim?
eu tentei comprar teu coraçãozinho mas eita precinho caro
tu me deixasse tipo "caralho"
tu adora quando eu me esborracho
pra tu poder juntar os pedaço
e jogar contra a parede

tu me deixasse tipo putaqueopariu
não pare de me comer
não desista de me comer
só pare de me amar

eu sigo brincando com fogo
só pra poder ficar perto de tu
vamo tocar fogo nas coisa juntos?
e eu vou andando na neve de neukölln a wedding só pra te comer
deve ser amor
que me deixa assim
que me deixa toda roxa mas me fode tão bem
que eu não consigo parar
deve ser amor
que fica botando meu nome na boca do sapo
não importa que porra eu faço, sem tu eu faço errado
mas fico querendo acertar então:
deve ser amor

aí tu vai ficar me comendo
só me coma
só me coma
tudo que tu tem que fazer é me comer
me deixar tipo PELOAMORDEDEUS
pare de me enrolar feito baseado
que porra eu tenho que fazer pra tu gostar de mim?


onda
inspirada em MC G15
p/ sergio


esse uísque me deixou convencida
então mal aê se eu tiver oferecida
eu só queria tu aqui
desculpa por aquele dia
eu sei que eu podia ser mais sutil
e mandar um zap melhor que esse
mas eu enchi as fuça e "vem pra cá"
é tudo o que eu tenho pra te dizer

tu me dá onda, mais onda que esse uísque
passa aqui, bora beber
eu espero que tu ainda teja acordado
porque tu me deixa acesa
bora fumar esse beck, passar a noite em claro
como a gente fazia antigamente
mas aqui tô eu sozinha com um cinzeiro cheio
e muito a dizer



(neukölln)



Tuesday, January 24, 2017

o martelo no brasil


agora tem "o martelo" no brasil, leitorinhas. vai sair pela garupa, com posfácio da deusa carol almeida,  e vai tá à venda na lojinha da garupa no facebook, depois de hoje.



esse é o belíssimo flyer do evento:




e essa é a belíssima foto usada nele,
do glorioso poeta and tradutor sergio maciel
(que btw lança livro mês que vem fiquem de olho)